Como ser e não ser – como permanecer sendo, quando o mundo inteiro passa a habitar dentro do seu território?

Por Ariela Doctors Voltei da Terra Indígena do Xingu, TIX, diferente de como cheguei. Mais especificamente, do Polo Pavuru, onde tive a oportunidade de visitar as aldeias Arayo e Moygu, do povo Ikpeng, território onde realizaremos uma formação do programa Cozinhas & Infâncias, como parte do consórcio Terra Nutre*. Mas, antes de qualquer formação, fui eu quem aprendeu. Existe um Brasil que não conhecemos. Um Brasil que pouco apareceu na escola, raramente ocupou os livros didáticos e, durante séculos, foi deliberadamente apagado da narrativa oficial. Um Brasil que continua vivo graças à resistência dos povos originários, que seguem protegendo suas línguas, seus modos de viver, seus conhecimentos e seus territórios. Conhecer um pouco da história dos Ikpeng foi, ao mesmo tempo, doloroso e profundamente esperançoso. Doloroso porque nos obriga a reconhecer a violência do apagamento. Esperançoso porque revela a potência de um povo que insiste em existir. Fui recebida com generosidade, bom humor e hospitalidade. Caminhei até a roça junto com as mulheres da aldeia, colhi mandioca, acompanhei todo o seu beneficiamento até ela se transformar em polvilho e provei a perereba, um mingau delicado, levemente adocicado, preparado com a mandioca. Vi sistemas agroflorestais sendo cultivados. Participei de rodas de conversa com professores, coordenadores da escola, lideranças e mulheres, algumas falavam apenas Ikpeng, outras compreendiam um pouco do português, mas todas compartilhavam saberes que atravessam gerações. Também conheci um grupo de jovens Ikpeng que já concluiu o ensino médio na própria aldeia e hoje cursa universidades fora do território. Muitos desejam retornar. E retornam. Querem implementar projetos de monitoramento do território contra invasões, fortalecer a comunicação das causas indígenas, recuperar alimentos ancestrais, ampliar iniciativas de reflorestamento, produzir conhecimento a partir de suas próprias perguntas. Estão aprendendo a elaborar projetos, construir orçamentos, acessar editais e captar recursos para fortalecer aquilo que já existe: sua própria cultura. Foi impossível não admirar essa geração. E foi impossível não perceber o enorme paradoxo que ela vive. Para estudar, é preciso sair da aldeia. Para voltar e fortalecer a aldeia, é preciso conhecer o mundo dos brancos. Esses jovens transitam entre dois universos. Circulam por cidades, universidades e aeroportos. Conhecem outras comidas, outras roupas, outras tecnologias, outras formas de viver. Depois retornam às casas construídas com madeira e palha, ao chão de terra batida, às redes, aos banhos de rio, aos peixes recém-pescados, à mandioca cultivada pela comunidade. É uma imagem que não saiu da minha cabeça: um jovem caminhando pela aldeia com um tênis branco de última geração sobre a terra vermelha do Xingu. Como ser e não ser ao mesmo tempo? Como viver a interculturalidade quando o isolamento deixou de existir? Como incorporar novos conhecimentos sem permitir que eles apaguem aqueles construídos ao longo de milhares de anos? Hoje, praticamente todas as casas possuem acesso à internet por satélite. O mundo inteiro cabe dentro da aldeia. As crianças Ikpeng continuam nadando no rio, subindo em árvores, colhendo tamarindos diretamente do pé, arrancando mandioca da terra, brincando com folhas, gravetos, sementes, barro e água. Crescem profundamente conectadas à natureza e à vida coletiva. Mas agora também crescem diante de telas. E talvez esse seja um dos maiores desafios desta geração. Nós, nas cidades, já naturalizamos o fato de precisar limitar o tempo das crianças diante dos celulares. Vivemos diariamente a disputa entre as experiências do mundo real e o poder de atração dos algoritmos. Os Ikpeng não precisavam travar essa batalha. As infâncias eram educadas pelo território, pela floresta, pelos rios, pelos mais velhos, pelas histórias compartilhadas e pela vida comunitária. Agora, precisam aprender também a educar diante de uma avalanche de imagens, desejos e estímulos produzidos muito longe dali. A mesma internet que aproxima pode afastar. A mesma tecnologia que permite denunciar invasões do território também pode capturar o tempo das crianças. O mesmo mundo que oferece acesso ao conhecimento ocidental oferece, igualmente, acesso aos alimentos ultraprocessados que já começam a modificar seus padrões alimentares. Refrigerantes, biscoitos recheados, salgadinhos e macarrão instantâneo chegam junto com o sinal da internet, trazendo consigo um fenômeno conhecido em tantas partes do mundo: o aumento das doenças crônicas não transmissíveis relacionadas à alimentação e o enfraquecimento das práticas alimentares tradicionais. Mais uma vez, a pergunta retorna. Como ser e não ser? Mas talvez exista uma pista de resposta. Enquanto grande parte da sociedade ocidental parece caminhar para uma hiperindividualização, onde o “eu” frequentemente se sobrepõe ao “nós”, os Ikpeng continuam nos ensinando outra forma de existir. Uma existência fundada no pertencimento, na responsabilidade compartilhada, na coletividade. No reconhecimento de que uma criança não pertence apenas à sua família, mas à aldeia inteira; de que a floresta não é um recurso, mas parte da própria vida; de que o alimento não é apenas uma mercadoria, mas uma relação entre pessoas, território e ancestralidade. Talvez seja essa hipercoletividade que permitiu aos Ikpeng sobreviverem a séculos de violência, expulsões e tentativas de apagamento. A pergunta que permanece, e que não é apenas deles, mas de todos nós, é outra: Será que essa força coletiva continuará suficientemente viva para acolher as crianças que crescem, desde muito cedo, imersas na hiperconectividade do mundo digital? Talvez esta não seja apenas uma pergunta sobre os Ikpeng. Talvez seja a pergunta do nosso tempo. Porque, no fundo, todos nós estamos tentando descobrir como permanecer humanos quando o mundo inteiro passou a caber na palma da nossa mão. *Sobre o Terra Nutre: O projeto é financiado pelo Fundo Amazônia/BNDES, no âmbito da iniciativa Amazônia na Escola, e executado pelo Instituto Centro de Vida (ICV) em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), o Centro de Tecnologia Alternativa (CTA), o Instituto Comida e Cultura (ICC), o Instituto Comida do Amanhã (CdA), o Instituto Conexões Sustentáveis (Conexsus) e a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso (Funadif). O Terra Nutre também conta com Acordos de Cooperação Técnica com a Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso (Seduc-MT) e com as prefeituras de Paranaíta, Nova Bandeirantes, Carlinda, Alta Floresta, Porto
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ENCANTAR O COMER: saberes ancestrais e utopias possíveis

Pensar em utopia no debate sobre alimentação saudável exige reconhecer que o ato de comer bem, no Brasil, é atravessado por desigualdades históricas. Paulo Freire nos lembra que a utopia não é fuga da realidade, mas um movimento para transformá-la. Nêgo Bispo amplia essa reflexão ao afirmar que imaginar outros mundos implica “desinventar” aquilo que o colonialismo estabeleceu como regra. Para ele, transformar significa recuperar cosmopolíticas ancestrais que colocam a vida e o território no centro das relações, rompendo com a lógica que separa seres humanos, natureza e alimentos. Hoje, alimentos ultraprocessados ocupam um espaço enorme na rotina das famílias brasileiras. Muitas vezes isso é impulsionado pelo preço, pela praticidade e pela ausência de políticas que garantam acesso contínuo a alimentos frescos e nutritivos. O racismo estrutural, somado à desigual distribuição de renda e de oportunidades, influencia diretamente esse cenário. Ele molda hábitos, acessos e possibilidades, e determina quem consegue ou não manter uma alimentação baseada em alimentos in natura. Esse rompimento entre alimento, território e corpo expressa o que Nêgo Bispo aponta como consequência da colonialidade, que transforma comida em mercadoria e desorganiza os vínculos comunitários que sustentavam a vida. Nesse debate, o pensamento de mulheres negras tem sido fundamental para ampliar o horizonte. Rute Costa, nutricionista brasileira e professora da UFRJ, é uma referência importante na área de Alimentação. Com uma formação acadêmica sólida, incluindo Mestrado em Alimentação, Nutrição e Saúde pela UERJ e Doutorado em Educação em Ciências e Saúde pela UFRJ, Rute é liderança do grupo de pesquisa CulinAfro, criado em 2014. Ela destaca que “alimentação é lugar de memória e de identidade”, reforçando que os saberes culinários afro-brasileiros foram historicamente desvalorizados, apesar de serem profundamente nutritivos, diversos e ligados à terra. Em seu trabalho com comunidades quilombolas, Rute Costa mostra que preservar esses modos de comer também é preservar autonomia e direitos, algo que dialoga com o que Bispo chama de contracolonização, quando práticas ancestrais resistem às imposições coloniais e seguem orientando a vida. Na diáspora, a nutricionista, ativista e copresidente de Nutrição e Saúde do Conselho de Política Alimentar de Washington, D.C., Tambra Raye Stevenson, fundadora da WANDA (Women Advancing Nutrition, Dietetics and Agriculture), atua na defesa da soberania alimentar de mulheres negras e na valorização dos saberes africanos que estruturam práticas culinárias e modos de comer. Ela afirma que “a comida é uma arma de cura e de soberania” e desenvolve projetos que recuperam práticas alimentares africanas e afro-diaspóricas para reconstruir sistemas de saúde mais justos, culturalmente adequados e conectados às identidades negras. Seu trabalho evidencia que não existe saúde separada de território, memória e enfrentamento às desigualdades raciais. Essa perspectiva também dialoga com a noção de encantamento de Nêgo Bispo, que compreende o cuidado com a vida como equilíbrio entre corpo, espírito e ambiente. Essas perspectivas mostram como o conhecimento afro-diaspórico pode nos ajudar a imaginar outros futuros possíveis. São futuros em que a comida de verdade seja um direito garantido, e não uma disputa diária. Futuros em que saberes ancestrais orientem políticas públicas, agricultura e educação alimentar. Futuros em que o cuidado com a terra e com o corpo não sejam luxo, mas parte da vida coletiva. Quando voltamos o olhar para povos originários e comunidades quilombolas, encontramos práticas que dialogam diretamente com essa utopia freireana e também com a visão de Nêgo Bispo, que nasceu e se formou em território quilombola. Historicamente, esses povos constroem formas de relação com a terra em que o alimento é parte da vida coletiva, da autonomia e da preservação do território. Eles demonstram, na prática, que outra forma de viver e comer é possível. É uma forma que respeita ciclos naturais, valoriza a diversidade, fortalece vínculos e coloca a vida, e não o mercado, no centro. Isso não significa que esses territórios estejam livres de pressões externas, como violências fundiárias, mudanças climáticas ou políticas que fragilizam a agricultura familiar. Mas mostra que aquilo que muitos chamam de “utopia alimentar” já existe em modos de vida ancestrais que sobreviveram à colonização, ao racismo e ao apagamento. Esses modos guardam saberes fundamentais para o presente e o futuro. Como afirma Nêgo Bispo, são formas de existência que “nunca se deixaram inventar”, justamente porque mantém viva a relação entre território, encantamento e coletividade. Assim, ao trazer para o centro as reflexões de pensadoras negras, os conhecimentos afro-diaspóricos, as contribuições de Nêgo Bispo e as práticas de povos originários, entendemos que a utopia alimentar não é fantasia. Ela já pulsa em muitos territórios, hortas, quintais e cozinhas. O desafio é fazer com que essas formas de existir deixem de ser exceção e se tornem horizonte comum. Talita Beltrame
Entre o real e o simbólico, entre o global e o ancestral: o chamado da COP30 para a Educação Alimentar Sistêmica

Em meio a paralisia diplomática e a potência ancestral, emergem caminhos que passam pela comida, pela cultura e pela educação.
Educar sobre comida é educar para a vida: participe da campanha pela Educação Alimentar nas escolas
No Dia Mundial da Alimentação (16 de outubro), o Instituto Comida e Cultura (ICC) lança, junto com o Greenpeace, Instituto Fome Zero, ACT Promoção da Saúde e Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), a campanha “A Hora e a Vez da Educação Alimentar” — uma mobilização nacional que convida a sociedade a assinar uma petição online pedindo a implementação efetiva da Educação Alimentar e Nutricional (EAN) nos currículos escolares de todo o país. Então, vaos nessa?! Assine a petição aqui. A Educação Alimentar e Nutricional já é garantida por lei no Brasil desde 2009 (Lei nº 11.947) e reforçada em 2018 (Lei nº 13.666). Mas, na prática, ainda não saiu do papel na maioria das redes de ensino. Ou seja, milhões de crianças e adolescentes seguem sem acesso a conteúdos que os ajudem a compreender de onde vem a comida que consomem, quais são seus direitos e como fazer escolhas mais saudáveis e sustentáveis. “Temos uma legislação avançada, que reconhece a Educação Alimentar como um direito. Mas falta vontade política para tirá-la do papel. Enquanto isso, vemos crianças cada vez mais expostas à publicidade de ultraprocessados, sem acesso a informações críticas sobre alimentação — e isso precisa mudar”, afirma Ariela Doctors, coordenadora geral do Instituto Comida e Cultura. Dia Mundial da Alimentação: um dia de luta O lançamento da campanha no Dia Mundial da Alimentação reforça a urgência de garantir uma política pública que una educação, cultura alimentar, sustentabilidade e cidadania.Isso porque, em um cenário marcado pela sindemia global (conceito que explica o entrelaçamento da obesidade, da desnutrição e das mudanças climáticas), a EAN se apresenta como uma estratégia essencial para enfrentar as desigualdades e fortalecer o direito à alimentação adequada e saudável desde a infância. “A educação alimentar e nutricional pode ser uma estratégia de integração dos componentes curriculares, enriquecendo a aprendizagem e desenvolvendo senso crítico quanto às escolhas alimentares”, destaca Giorgia Russo, especialista do Idec. Inclusive, esta campanha é fruto de uma articulação inédita entre organizações da sociedade civil comprometidas com a soberania alimentar e a educação. O ICC, ao lado de suas alianças, reforça o convite para que educadores, governos e cidadãos se engajem nessa pauta.Educar sobre comida é educar para a vida — e garantir a Educação Alimentar nas escolas é formar gerações mais conscientes, saudáveis e críticas. Educar sobre comida é educar para a vida. Garantir a Educação Alimentar nas escolas é formar gerações mais conscientes, saudáveis e críticas. Junte-se a nós nessa mobilização!
quando a touca não cabe e a gente não quer caber

Na cozinha, tudo deveria caber: o cheiro do café, a lembrança da infância, as vozes que cozinham juntas. Mas e quando a touca expulsa? A cozinha é mais que lugar de panelas e receitas: é território de partilhas, onde a oralidade se encontra com a memória. Ali, emoções e conexões se acendem; histórias proseadas enquanto o bolo cresce no forno; o aroma do café anuncia e os cheiros despertam lembranças da infância. É nesse espaço que corpos se reconhecem e se sentem pertencentes. O programa Cozinhas & Infâncias nasce com esse propósito: inserir a alimentação no currículo pedagógico como parte essencial de uma educação emancipatória. Uma educação que dialoga com Culturas, Histórias, Sistemas Alimentares, Biodiversidade, Relações Étnico-Raciais e o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira, Africana e Indígena. Em 2023, a formação chegou à rede pública de educação infantil de São Paulo, numa parceria entre o Instituto Comida e Cultura, a Secretaria Municipal de Educação (CODAE) e a Faculdade de Saúde Pública da USP. No Laboratório de Práticas Culinárias, professoras, professores e cozinheiras se encontram: aprendem, trocam, cozinham juntas. Mas havia algo muito sutil, deveria ser invisível e gritava: a touca descartável. Obrigatória por norma sanitária e símbolo de um higienismo herdado do século XIX, ela deveria proteger alimentos e corpos. Mas seu tamanho ‘padrão’ não cabia em todas as cabeças. Não acolhia os cabelos crespos, afros, volumosos, que representam uma estética identitária, de beleza e de auto afirmação. E quando não cabe, a touca vira desconforto, reforça estereótipos racistas, dá sinais de inadequação e indica um não lugar. Afinal, essa touca foi feita para quem? Quem pode estar e transitar nesse espaço? Nossa metodologia fala de pertencimento, mas como experivivência-la na prática se até a touca expulsa? Reconhecendo isso, o Instituto Comida e Cultura passa agora a adotar toucas que acolhem e abraçam todos os tipos de cabelo. E pede desculpas por não ter feito antes. Pois foi necessário trazer mais diversidade para nossa equipe, para realmente olharmos para isso com a devida importância. Pois para quem está a todo tempo lutando para ser quem é, isso não passaria despercebido. Porque a cozinha é lugar de pertencimento, construção de um estar inteiro, singular e coletivo..E se a cozinha é espaço de ensino, resistência, precisamos ressignificá-lo para ser também espaço de dignidade, de celebração e cuidado — onde nenhuma mulher, nenhum corpo, nenhum cabelo se sinta fora do lugar. *texto de daniella brochado, em colaboração com mariana soares, ana vasconcellos e thalita beltrame. Brasil, 02 de setembro de 2025.