Feira de produtores e seminário sobre educação alimentar acontece em Chapada dos Guimarães-MT em julho

Evento gratuito é promovido pelo Instituto Comida e Cultura na Escola Estadual Rafael de Siqueira, com apoio da Prefeitura de Chapada dos Guimarães e do Ministério Público do Mato Grosso O município de Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso, recebe o seminário “Cozinhas & Infâncias: Educação e Alimentação Escolar no Cerrado” no dia 5 de julho. O evento acontecerá na Escola Estadual Rafael de Siqueira. A programação inclui a apresentação de projetos pedagógicos em Educação Alimentar e Nutricional (EAN), além de uma feira de alimentos da sociobiodiversidade cultivados por produtores locais e atividades pensadas para as crianças. Os projetos em EAN são fruto do Programa Cozinhas e Infâncias na Chapada dos Guimarães, uma formação em educação alimentar voltada para professores, cozinheiras e gestores escolares, promovida pelo Instituto Comida e Cultura (ICC) em parceria com a Secretaria Municipal de Educação e o Ministério Público. “Com a inserção da educação alimentar na rotina escolar, é possível envolver toda a comunidade, desde a valorização do trabalho das cozinheiras enquanto educadoras, com a introdução de novas receitas, até o incentivo à gestão pública na compra e fomento de alimentos da sociobiodiversidade local. Para que a educação alimentar e nutricional nas escolas seja eficaz, é importante que essas ações sejam contínuas e permanentes”, destaca Flora Camargo, facilitadora de processos pedagógicos do Instituto Comida e Cultura. O seminário “Cozinhas & Infâncias: Educação e Alimentação Escolar no Cerrado” pretende ser uma oportunidade de polinizar as ações das educadoras que fizeram a formação do ICC, para que outros professores da rede municipal se inspirem a desenvolver suas próprias ações pedagógicas em EAN. “O projeto Cozinhas e Infâncias atua na base da educação alimentar de nossas crianças, trabalhando no ambiente onde elas passam a maior parte do tempo: as escolas. Nesta terceira etapa, o projeto visa fortalecer os profissionais que cozinham nas escolas públicas do município, ensinando técnicas inovadoras com alimentos locais. O objetivo também é reforçar o Guia Alimentar para a População Brasileira nas escolas públicas”, afirma Leandro Volochko, promotor de Justiça de Chapada dos Guimarães. Para Benedito Lechner, secretário municipal de Educação, o projeto do Instituto Comida e Cultura tem sido uma ferramenta fundamental para o desenvolvimento alimentar educacional de Chapada dos Guimarães, especialmente considerando o perfil da população da zona rural. “Temos vários servidores engajados nesse projeto, alguns participando pela terceira edição, o que demonstra o impacto e a continuidade dessa iniciativa”, avalia. “Os professores estão adquirindo conhecimentos valiosos sobre os produtos do Cerrado, aprendendo a valorizá-los e a incorporá-los na alimentação escolar. Esse aprendizado já trouxe resultados concretos, como a inclusão do pequi e da farinha de baru no pregão eletrônico da merenda escolar, garantindo que nossos alunos tenham acesso a ingredientes naturais e nutritivos”, completa. Além das apresentações dos projetos das educadoras, a programação do seminário inclui uma mesa redonda sobre o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e haverá distribuição do “Guia Orientador Educação Alimentar e Nutricional nas escolas municipais de Chapada dos Guimarães”, um manual desenvolvido pelo Instituto Comida e Cultura para auxiliar na implementação de práticas pedagógicas que promovam a reconexão com o alimento e o meio ambiente. Atividades para as crianças e a “Feira Sabores e Saberes” completam a agenda, e será possível comprar alimentos direto dos produtores, com foco na biodiversidade local. SERVIÇO: Seminário Cozinhas & Infâncias: Educação e Alimentação Escolar no Cerrado Feira de produtores com alimentos do Cerrado, atração cultural, rodas de conversa sobre educação alimentar, exibição de filme e atividades para as crianças. Local: Escola Estadual Rafael de Siqueira – Rua Tiradentes, 350, Chapada dos Guimarães/MT Quando: 5 de julho, das 8h às 13h30 Programação completa: 8h às 8h30 – Boas-vindas e abertura da feira8h30 às 10h30 – Apresentação de projetos: Educação Alimentar e Nutricional – Autonomia e Permanência10h30 às 11h – Intervalo com lanche11h às 11h30 – Performance cultural11h30 às 13h30 – Mesa redonda: Programa Nacional de Alimentação Escolar e suas diretrizes na Chapada dos Guimarães Programação para as crianças: 8h30 às 10h30 – Exibição de filme11h às 13h30 – Oficinas pedagógicas e lúdicas Feira Saberes e Sabores (produtores locais): aberta durante todo o evento, das 8h às 13h30.
Formação em educação alimentar chega a Curitiba com o programa Cozinhas e Infâncias

Quando aprendem desde cedo, as crianças semeiam conhecimento por onde vão. São saberes que incluem conhecer seus direitos e deveres, desenvolver habilidades emocionais e técnicas, e aprender a cuidar de si, do outro e do planeta. Para promover a semeadura de saberes sobre alimentação, história e meio ambiente, o Instituto Comida e Cultura (ICC) trabalha, desde 2022, com a formação de educadores por meio do Programa Cozinhas e Infâncias. Em 2025, enquanto esta experiência multidisciplinar inicia sua terceira fase em São Paulo, o Cozinhas e Infâncias chega a Curitiba, capital do Paraná. O projeto acontece por meio de um Acordo de Cooperação Técnica (ACT) entre o ICC e a Prefeitura de Curitiba, e vem para potencializar o projeto “Mãos na massa”, já em desenvolvimento pela prefeitura nas escolas municipais, a partir da metodologia desenvolvida pelo Instituto Comida e Cultura. “O programa Cozinhas e Infâncias tem o alimento como ferramenta, falando muito da história geral e do Brasil. A gente decoloniza esses conceitos e traz para os educadores, principalmente de cidades no Sul e no Sudeste, uma realidade de um Brasil da qual eles estão mais distantes. E acredito que o mais poderoso nesse curso é ser uma ferramenta de união do grupo de cursistas”, afirma Ana Vasconcelos, facilitadora nos programas de formação do ICC. Onze escolas municipais dos anos finais do ensino fundamental participam do Cozinhas e Infâncias na capital paranaense. Com o apoio do Instituto Bia Rabinovich (IBR), a expectativa é sensibilizar 40 educadores, que serão capazes de disseminar a educação alimentar integrativa e transformar vidas em suas comunidades. O curso é distribuído em sete módulos, ministrados no primeiro semestre de 2025. “Fomentar a educação alimentar nas escolas brasileiras é uma estratégia poderosa de transformação social. Quando investimos na formação de educadores para levarem esse conhecimento às salas de aula, estamos indo muito além da promoção de hábitos saudáveis. Estamos enfrentando desigualdades históricas que afetam milhões de crianças e jovens em situação de vulnerabilidade”, defende Carla Mourão, diretora executiva do IBR. “Ao capacitarmos educadores da rede pública, damos a eles ferramentas para formar uma geração mais consciente, crítica e preparada para construir um futuro mais justo, sustentável e solidário. E ao patrocinar iniciativas como essa, reafirmamos nosso propósito de fomentar projetos que geram impacto social concreto e contribuem para a construção de um sistema alimentar mais justo, saudável e consciente em todo o Brasil”, completa. De acordo com o Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 24% da população de Curitiba se autodeclara preta ou parda. Esse percentual faz da cidade a capital com maior número de pessoas negras da região sul do Brasil. E, como resultado das desigualdades sociais por cor e raça no país, percebe-se maiores níveis de vulnerabilidade socioeconômica nas populações preta, parda e indígena. “Há muitas pessoas negras em Curitiba, mas a maior parte é periférica. Uma das professoras participantes é uma mulher negra e relatou o quanto o curso estava sendo importante para ela sentir que está no caminho certo, que não deve desistir. Foi muito emocionante ver que pudemos dar apoio às decisões que ela vai tomar a partir da conscientização de quem ela é”, conta Ana Vasconcelos. A educadora a quem Ana se refere é Lígia Krelling, que atua como técnica da equipe de ciências no Departamento do Ensino Fundamental da Prefeitura de Curitiba. Ela conta que se identificou com a abordagem sobre decolonidade na aula de abertura do Cozinhas e Infâncias. Quando escreveu sua tese de doutorado sobre as hortas comunitárias de Curitiba, Lígia diz que não incluiu o recorte de que a maior parte das pessoas que frequentavam esses espaços eram mulheres negras. Hoje, em outro momento de vida, está lendo sobre a Cida Bento, Sueli Carneiro e outras autoras negras que trazem esse recorte. “Como uma mulher negra, eu preciso participar desse grupo de estudos, e hoje eu já traria uma outra perspectiva para a minha pesquisa. Ao chegar aqui e ver a Ana falando, me identifiquei e me reconheci nela. Fiquei muito feliz de ver uma mulher negra numa posição de destaque e de perceber que o curso vai trazer essa perspectiva decolonial para o currículo e para a questão da alimentação, o que é muito significativo e importante. Esse é um lugar ao qual precisamos pertencer e existir, e agradeço muito a oportunidade de fazer esse curso.” Tem interesse em colaborar conosco? Se você tem um projeto de educação alimentar em andamento e gostaria que o Instituto Comida e Cultura leve sua metodologia pedagógica para a sua cidade, entre em contato conosco neste canal. Juntas e juntos, podemos levar educação alimentar a todas as crianças do Brasil!
No caminho da luz, todo mundo é preto: educação alimentar racializada para sistemas alimentares mais justos e saudáveis

Artigo de Bruna Crioula, Letícia Borges e Natália Escouto, curadoras da Crioula Curadoria Alimentar “No caminho da luz, todo mundo é preto.” Essa frase, imortalizada na canção Principía, de Emicida, ilumina um princípio fundamental: se a luz é a convergência de todas as cores, a educação alimentar racializada é um chamado para se reencontrar e incorporar pela centralidade da negritude na construção dos saberes alimentares que sustentam nossas comunidades. Alimentação é memória, tecnologia social e conexão com o sagrado. Comer é um ato carregado de sentidos, e nesse ato reconhecemos que a comida é também história, cultura e patrimônio que precisa ser cuidado, zelado e difundido entre gerações de forma contínua e permanente. Aprendemos com nossas mestras, mestres e matriarcas, como Nego Bispo e Makota Valdina, que a alimentação nunca foi apenas sobre nutrientes e calorias, mas sobre pertencimento e autonomia. Fomos socializados a partir de uma visão eurocêntrica que nos afastou das conexões ancestrais que sempre nos foram passadas através do alimento. Mas comida é resgate. Sabor e estética se confundem com histórias e sensações. Cada tempero, cada prato, cada ritual ao redor da mesa carrega ensinamentos que sobrevivem ao tempo. A Crioula Curadoria Alimentar nasce desse desejo de reencontro. Trabalhamos para fortalecer saberes africanos e indígenas sobre alimentação, promovendo uma educação alimentar que respeita e valoriza a diversidade dos sistemas alimentares tradicionais. Nossa ESCOLACrioula – ancestralidade alimenta é um espaço de aprendizado e compartilhamento, onde a comida volta a ocupar seu lugar como ferramenta de saúde, soberania alimentar e justiça social. Nosso curso “Alimentação Saudável numa Afroperspectiva” questiona o que significa se alimentar bem. O que é saúde quando olhamos desde as cosmovisões negras e diaspóricas? Como os alimentos tradicionais das nossas culturas sustentaram vidas e resistências por séculos? Mergulhamos nos saberes alimentares que sempre promoveram equilíbrio, longevidade e bem-estar, antes mesmo que a ciência ocidental os validasse. Saúde não é apenas ausência de doença, mas também prazer, memória e conexão com a terra. Já em “Mato é Comida? Conheça as PANC ancestrais”, nos aproximamos da sociobiodiversidade alimentar e o conhecimento sobre as Plantas Alimentícias Não Colonizadas (PANC ancestrais), que sempre estiveram presentes nas cozinhas quilombolas, indígenas e periféricas. Muitas dessas plantas, hoje esquecidas ou marginalizadas, já foram fundamentais para a segurança alimentar de nossas comunidades. Resgatar esses saberes é um ato de autonomia e resistência. Imaginamos um mundo onde a merenda escolar invada as salas de aula, onde professores utilizam uma receita ou um ingrediente para ensinar história, geografia e ciências. Onde cozinhas comunitárias se tornam espaços de aprendizado, onde agricultoras, merendeiras e cozinheiras de quilombos e terreiros compartilham seu conhecimento como protagonistas de uma nova educação alimentar. Precisamos romper com a lógica de que aprender sobre comida é um exercício distante de quem cozinha, planta e cuida da alimentação. Pensar em uma educação alimentar racializada é partir de um berço cultural africano e diaspórico, onde a relação entre ser humano e natureza é de integração e não de exploração. É aprender a olhar para nossos sistemas alimentares com a consciência de que a monocultura, a fome e a desnutrição são construções coloniais. É resgatar o que sempre foi nosso: a autonomia sobre o que plantamos, preparamos e comemos. Se nossos pratos são janelas para entender o mundo, queremos que cada refeição seja um convite à memória, à identidade e à transformação. No caminho da luz, todo mundo é preto. E a Crioula Curadoria Alimentar segue abrindo caminhos para que essa luz brilhe cada vez mais forte cozinhando ideias para futuros nutridos. Sobre as autoras Bruna Crioula – nutricionista ecológica, mestre em Ciências. Matrigestora da Crioula Curadoria Alimentar e Coordenadora Geral da ESCOLACrioula – ancestralidade alimenta. Natália Escouto – gastróloga, pesquisadora e educadora alimentar. Especialista em Educação Alimentar. Curadora e Coordenadora Pedagógica na Crioula Curadoria Alimentar. Escreve sobre alimentação no projeto Cozinhe sua História. Letícia Borges – cozinheira, idealizadora e gestora da Folias Gastronômicas, educadora alimentar, e entusiasta das PANC ancestrais. Oferecer esse conhecimento usando as possibilidades encontradas na natureza e transformar a relação das pessoas com o alimento é seu propósito. Focalizadora de Danças Circulares Sagradas, doula, mãe do João e do Pedro. Filha de Terezinha e neta de Isaltina, poeta e curadora na Crioula Curadoria Alimentar.
Tomate: você sabia que este fruto é latinoamericano?

Quem nunca olhou para um tomate, ou ainda, para um pote de molho de tomate, e logo pensou em algum prato italiano? A crença de que os tomates são nativos da Itália passa de geração em geração, já que a fruta – sim, o tomate é um fruto! – é um ícone da culinária italiana, usado em muitos pratos, incluindo massas, ensopados e conservas. Sua origem, no entanto, está na América Latina. A jornada do tomate começou como uma planta selvagem encontrada no Equador, no Peru e no Chile. Depois, foi migrando mais para o norte do continente, onde os maias e os astecas trabalharam seu cultivo e modificaram a planta em variedades maiores e mais comestíveis. O nome “tomate”, inclusive, vem da palavra asteca para a planta, “tomatl”. As expedições de Cristóvão Colombo, sob as ordens da Coroa Espanhola, deram início à migração dos alimentos americanos para a Europa. De lá, se espalharam também pela África e pela Ásia, levados na bagagem de comerciantes. Assim, o tomate chegou à Itália ainda no século 16 e, por algum tempo, não caiu no gosto dos europeus por ser considerado uma planta tóxica. “Na própria Itália, embora do tomate fosse comido em salada – ‘com sal, pimenta e óleo, como se comem pepinos’, dizia em 1704 o Dicionário de Trévaux –, o molho de tomate, como tempero para massas, apareceu tardiamente: no século 18, nem os livros de cozinha nem os viajantes registram sua existência”, explicam os pesquisadores Jean-Louis Flandrin e Massimo Montanari no livro História da Alimentação. A popularização do tomate na Itália só aconteceu no século 19, quando o espaguete ao pomodoro (tomate, em italiano) ganhou as cozinhas e as barracas de comida de Nápoles, no sul do país. Mas a grande virada veio no século 20, quando muitos imigrantes italianos chegaram aos Estados Unidos e passaram a importar as conservas de tomate, seja em pasta, passata ou molho, da Itália. Nessa época, os produtos também eram exportados para o Reino Unido e logo se tornaram um símbolo da economia e da cultura italiana. A variedade mais famosa dos tomates italianos é a San Marzano. Uma curiosidade é que, atualmente, os frutos dessa variedade consumidos na Itália e pelo mundo são, na verdade, produzidos nos Estados Unidos. Um tesouro nacional que hoje precisa ser importado pelos italianos devido à forma como produzimos os alimentos em todo o mundo, uma agricultura intensiva que agride o meio ambiente. No Brasil, o tomate está nas saladas dos PFs, nas feiras, no quintal de casa, nos jardins comestíveis do bairro e na merenda escolar. É um fruto americano, que podemos celebrar e saborear com gosto. Sugerimos que experimente diversificar seus usos, como na brusqueta de tomate e cambuci que publicamos no e-book Receitas com memórias, produzido pelo Instituto Comida e Cultura (ICC) em 2024. O material foi entregue às cozinheiras escolares participantes do Programa Cozinhas e Infâncias em São Paulo, uma parceria do ICC com a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo e a Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP). Acesse aqui a receita da Brusqueta de tomate e cambuci, super prática para fazer com as crianças. Esperamos que goste!