“Escutar histórias de alimentação também é fazer saúde coletiva”: entrevista com Lucia Guerra sobre nossa primeira pesquisa qualitativa

No dia 30 de julho, o Instituto Comida e Cultura (ICC) lançou os resultados da pesquisa qualitativa “Interseccionalidade, Comida e Educação Alimentar e Nutricional (EAN): a História Oral de Professoras de Escolas Públicas do Município de São Paulo-SP“, desenvolvida no âmbito do Programa Cozinhas & Infâncias. O lançamento acontceu durante o Seminário:Saberes da Boca pra Boca, que ocorreu no IEA-USP, com a presença das professoras Maria Aparecida Vieira, Priscila Aparecida Santos, Hélia de Lourdes, Bárbara de Souza e Zaíra Kury, gestores de políticas públicas, pesquisadores e profissionais da área da alimentação escolar. O estudo ouviu cinco educadoras da rede pública municipal de São Paulo, formadas pelo programa em 2023, e usou a história oral como estratégia metodológica para compreender como a alimentação atravessa suas identidades, memórias e práticas pedagógicas. Baixe aqui o relatório completo da pesquisa em PDF Para entender melhor os fundamentos teóricos e metodológicos por trás da pesquisa, conversamos com Lucia Guerra, nutricionista, pesquisadora-colaboradora do ICC e uma das responsáveis pela condução do estudo. Na entrevista abaixo, ela explica por que a história oral foi escolhida como método central, como a interseccionalidade de Patrícia Hill Collins foi aplicada na prática, o que mais a tocou nas narrativas das professoras, e o que a pesquisa qualitativa tem a contribuir para a disputa por políticas públicas mais eficientes. Confira a entrevista completa a seguir: ICC: A pesquisa usa a história oral como método central. Por que essa escolha? O que esse método permite acessar que outros dispositivos de pesquisa não alcançam? Lucia Guerra: A escolha da história oral foi fundamental porque a pesquisa não queria apenas saber o que as professoras aprenderam, mas compreender como suas histórias de vida, memórias, identidades e experiências foram mobilizadas pela formação vivida através do Programa Cozinhas & Infâncias. A oralidade, estratégia investigativa central do método qualitativo da história oral, foi entendida não apenas como uma técnica para coletar informações, mas como um campo epistemológico próprio, capaz de produzir uma dimensão viva do conhecimento. Quando perguntamos “quem te ensinou a comer?”, “quem te ensinou a cozinhar?” ou “qual é a sua lembrança mais antiga relacionada à alimentação?”, estamos acessando dimensões que dificilmente apareceriam em um questionário estruturado e de abordagem metodológica quantitativa. Aparecem os afetos, os cheiros, os sabores, as relações familiares, as marcas de classe, raça, gênero, identidade, as experiências de infância, os territórios e as ancestralidades. Isso ficou muito evidente nas narrativas. A comida apareceu não simplesmente como alimento, mas como memória, linguagem, identidade, cuidado e pertencimento. A história oral permitiu, portanto, perceber a relação entre aquilo que essas mulheres viveram e aquilo que hoje fazem como professoras. O método da história oral permite acessar a dimensão subjetiva e vivida dos processos históricos, capturando a interseção entre a memória individual, as trajetórias de vida e a experiência social coletiva — uma esfera frequentemente negligenciada ou invisibilizada por caminhos metodológicos com abordagens de matriz positivista. Sob o ponto de vista teórico-metodológico, a história oral não busca apenas averiguar o “fato” objetivo, mas compreender o significado e a elaboração simbólica atribuídos ao acontecido por quem o vivenciou, reconhecendo a subjetividade não como um viés a ser corrigido, mas como o próprio objeto de investigação. Na dimensão analítica, ela evidencia a agência histórica de sujeitos marginalizados (como populações periféricas, minorias étnico-raciais e mulheres) ao revelar como essas narrativas desafiam, tensionam ou reconfiguram as hegemonias existentes e a memória oficial. Na prática da pesquisa, o dispositivo da entrevista em profundidade com o uso da história oral institui uma relação dialógica única entre pesquisador e o sujeito da pesquisa. Há ainda uma dimensão política: escutar é reconhecer essas mulheres como produtoras de conhecimento. A pesquisa não trata suas falas como simples ilustrações de uma teoria, de um método investigativo; elas são parte da produção do conhecimento, elas co-produzem junto conosco o caminho da remontagem de sua própria história de experiência existencial como ser humano e como professoras. Por isso os resultados da pesquisa falam em “co-produção dos dados”. As entrevistas narrativas foram organizadas a partir de cinco eixos — identidade; memórias de comida e cultura; trajetória profissional; Direito Humano à Alimentação Adequada e Saudável (DHAAS), Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) e Educação Alimentar e Nutricional (EAN); e experiência formativa — e posteriormente revistas por meio de análise de conteúdo-temática. ICC: A interseccionalidade de Patrícia Hill Collins é uma das lentes analíticas da pesquisa. Como ela foi aplicada na prática? O que significa olhar para as trajetórias dessas professoras através dessa lente? LG: Na prática, a interseccionalidade significou não olhar para gênero, raça ou classe como categorias separadas, mas procurar compreender como essas dimensões se articulam e produzem experiências concretas através de um método investigativo que constrói outras relações de poder e do saber sobre a existência individual e coletiva. A pesquisa parte da compreensão de Patricia Hill Collins — contato inicial e formativo da equipe de pesquisadoras, ampliado posteriormente com o aporte constitutivo de autores e autoras brasileiras como Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Conceição Evaristo, Abdias Nascimento e Carolina Maria de Jesus, entre tantos outros que evidenciam de forma brilhante esse caminho na América Latina e no Caribe — de que a interseccionalidade permite investigar como relações interseccionais de poder influenciam as relações sociais e as experiências individuais da vida cotidiana. O estudo mobilizou especialmente as categorias de gênero, raça, classe, identidade e território. Isso muda bastante a pergunta de pesquisa. Em vez de perguntar simplesmente “por que essa mulher se tornou professora?”, perguntamos: que relações de gênero, raça, classe, território, cuidado e trabalho atravessaram sua trajetória até chegar à prática do ensino, como professora? E as narrativas mostraram justamente que essas dimensões não estão separadas, ao contrário, estão profundamente entrelaçadas e são indissociáveis. Há, por exemplo, a trajetória de uma entrevistada que trabalhou durante 18 anos como diarista e que foi incentivada por suas patroas, professoras, a estudar e prestar um concurso público — tornando-se professora. Em outra trajetória, aparece a experiência de crescer em um bairro periférico e em uma organização social, onde a solidariedade

Educação alimentar nas Américas: ICC co-organiza seminário internacional em setembro

Em 22 de setembro, o ICC co-organiza o Seminário Internacional Construir y Cultivar la Cooperación para una Educación Alimentaria Nutricional más Efectiva en las Américas, ao lado da Colansa, da Universidade Autônoma do Estado de Hidalgo (México) e do Movimento de Alimentação Saudável do Panamá. O evento é um desdobramento do webinário realizado em maio de 2026, que reuniu representantes das mesmas organizações, iniciando um debate sobre os desafios comuns da educação alimentar na região, como a expansão dos ultraprocessados, a ausência da EAN nos currículos escolares e a necessidade de formar educadores capazes de atuar de forma permanente e transversal nessa área. A programação reúne pesquisadores, gestores públicos, nutricionistas e educadores de diferentes países, com apresentações sobre modelos e metodologias de intervenção em EAN. Como estudo de caso, o ICC apresenta uma experiência educacional desenvolvida no município de Chapada dos Guimarães, no cerrado brasileiro. A diretora-geral do ICC, Ariela Doctos, e a coordenadora de desenvolvimento institucional, Erika Fischer, estarão presencialmente no México, nessa agenda que pretende discutir a relevância da EAN para a agenda pública nacional e internacional. O evento retoma uma questão central que emergiu em maio: os desafios da alimentação saudável, que envolvem cultura, território, ancestraloidade, autonomia e direitos; exigem políticas públicas e ações educativas que caminhem juntas. É essa articulação que o ICC busca fortalecer, no Brasil e no continente, por meio dos programas Cozinhas e Infâncias e Cozinhas e Territórios. Participe! Seminário Internacional: Construir y cultivar la cooperación para una Educación Alimentaria Nutricional más efectiva en las AméricasData: 22 de setembro — 12h (Brasil) | 9h (México)Local: UAEH — Universidad Autónoma del Estado de Hidalgo, Pachuca, MéxicoTransmissão: ao vivo pelo Zoom da Rede Colansa — inscrições abertas

Como ser e não ser – como permanecer sendo, quando o mundo inteiro passa a habitar dentro do seu território? 

Por Ariela Doctors  Voltei da Terra Indígena do Xingu, TIX, diferente de como cheguei. Mais especificamente, do Polo Pavuru, onde tive a oportunidade de visitar as aldeias Arayo e Moygu, do povo Ikpeng, território onde realizaremos uma formação do programa Cozinhas & Infâncias, como parte do consórcio Terra Nutre*. Mas, antes de qualquer formação, fui eu quem aprendeu. Existe um Brasil que não conhecemos. Um Brasil que pouco apareceu na escola, raramente ocupou os livros didáticos e, durante séculos, foi deliberadamente apagado da narrativa oficial. Um Brasil que continua vivo graças à resistência dos povos originários, que seguem protegendo suas línguas, seus modos de viver, seus conhecimentos e seus territórios. Conhecer um pouco da história dos Ikpeng foi, ao mesmo tempo, doloroso e profundamente esperançoso. Doloroso porque nos obriga a reconhecer a violência do apagamento. Esperançoso porque revela a potência de um povo que insiste em existir. Fui recebida com generosidade, bom humor e hospitalidade. Caminhei até a roça junto com as mulheres da aldeia, colhi mandioca, acompanhei todo o seu beneficiamento até ela se transformar em polvilho e provei a perereba, um mingau delicado, levemente adocicado, preparado com a mandioca. Vi sistemas agroflorestais sendo cultivados. Participei de rodas de conversa com professores, coordenadores da escola, lideranças e mulheres, algumas falavam apenas Ikpeng, outras compreendiam um pouco do português, mas todas compartilhavam saberes que atravessam gerações. Também conheci um grupo de jovens Ikpeng que já concluiu o ensino médio na própria aldeia e hoje cursa universidades fora do território. Muitos desejam retornar. E retornam. Querem implementar projetos de monitoramento do território contra invasões, fortalecer a comunicação das causas indígenas, recuperar alimentos ancestrais, ampliar iniciativas de reflorestamento, produzir conhecimento a partir de suas próprias perguntas. Estão aprendendo a elaborar projetos, construir orçamentos, acessar editais e captar recursos para fortalecer aquilo que já existe: sua própria cultura. Foi impossível não admirar essa geração. E foi impossível não perceber o enorme paradoxo que ela vive. Para estudar, é preciso sair da aldeia. Para voltar e fortalecer a aldeia, é preciso conhecer o mundo dos brancos. Esses jovens transitam entre dois universos. Circulam por cidades, universidades e aeroportos. Conhecem outras comidas, outras roupas, outras tecnologias, outras formas de viver. Depois retornam às casas construídas com madeira e palha, ao chão de terra batida, às redes, aos banhos de rio, aos peixes recém-pescados, à mandioca cultivada pela comunidade. É uma imagem que não saiu da minha cabeça: um jovem caminhando pela aldeia com um tênis branco de última geração sobre a terra vermelha do Xingu. Como ser e não ser ao mesmo tempo? Como viver a interculturalidade quando o isolamento deixou de existir? Como incorporar novos conhecimentos sem permitir que eles apaguem aqueles construídos ao longo de milhares de anos? Hoje, praticamente todas as casas possuem acesso à internet por satélite. O mundo inteiro cabe dentro da aldeia. As crianças Ikpeng continuam nadando no rio, subindo em árvores, colhendo tamarindos diretamente do pé, arrancando mandioca da terra, brincando com folhas, gravetos, sementes, barro e água. Crescem profundamente conectadas à natureza e à vida coletiva. Mas agora também crescem diante de telas. E talvez esse seja um dos maiores desafios desta geração. Nós, nas cidades, já naturalizamos o fato de precisar limitar o tempo das crianças diante dos celulares. Vivemos diariamente a disputa entre as experiências do mundo real e o poder de atração dos algoritmos. Os Ikpeng não precisavam travar essa batalha. As infâncias eram educadas pelo território, pela floresta, pelos rios, pelos mais velhos, pelas histórias compartilhadas e pela vida comunitária. Agora, precisam aprender também a educar diante de uma avalanche de imagens, desejos e estímulos produzidos muito longe dali. A mesma internet que aproxima pode afastar. A mesma tecnologia que permite denunciar invasões do território também pode capturar o tempo das crianças. O mesmo mundo que oferece acesso ao conhecimento ocidental oferece, igualmente, acesso aos alimentos ultraprocessados que já começam a modificar seus padrões alimentares. Refrigerantes, biscoitos recheados, salgadinhos e macarrão instantâneo chegam junto com o sinal da internet, trazendo consigo um fenômeno conhecido em tantas partes do mundo: o aumento das doenças crônicas não transmissíveis relacionadas à alimentação e o enfraquecimento das práticas alimentares tradicionais. Mais uma vez, a pergunta retorna. Como ser e não ser? Mas talvez exista uma pista de resposta. Enquanto grande parte da sociedade ocidental parece caminhar para uma hiperindividualização, onde o “eu” frequentemente se sobrepõe ao “nós”, os Ikpeng continuam nos ensinando outra forma de existir. Uma existência fundada no pertencimento, na responsabilidade compartilhada, na coletividade. No reconhecimento de que uma criança não pertence apenas à sua família, mas à aldeia inteira; de que a floresta não é um recurso, mas parte da própria vida; de que o alimento não é apenas uma mercadoria, mas uma relação entre pessoas, território e ancestralidade. Talvez seja essa hipercoletividade que permitiu aos Ikpeng sobreviverem a séculos de violência, expulsões e tentativas de apagamento. A pergunta que permanece, e que não é apenas deles, mas de todos nós, é outra: Será que essa força coletiva continuará suficientemente viva para acolher as crianças que crescem, desde muito cedo, imersas na hiperconectividade do mundo digital?  Talvez esta não seja apenas uma pergunta sobre os Ikpeng. Talvez seja a pergunta do nosso tempo. Porque, no fundo, todos nós estamos tentando descobrir como permanecer humanos quando o mundo inteiro passou a caber na palma da nossa mão. *Sobre o Terra Nutre: O projeto é financiado pelo Fundo Amazônia/BNDES, no âmbito da iniciativa Amazônia na Escola, e executado pelo Instituto Centro de Vida (ICV) em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), o Centro de Tecnologia Alternativa (CTA), o Instituto Comida e Cultura (ICC), o Instituto Comida do Amanhã (CdA), o Instituto Conexões Sustentáveis (Conexsus) e a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso (Funadif). O Terra Nutre também conta com Acordos de Cooperação Técnica com a Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso (Seduc-MT) e com as prefeituras de Paranaíta, Nova Bandeirantes, Carlinda, Alta Floresta, Porto

Pesquisa sobre a metodologia do ICC é publicada em revista da Unicamp

A Revista Segurança Alimentar e Nutricional, da Unicamp, publicou nesta edição um artigo assinado por Ariela Doctors, Diretora Geral do Instituto Comida e Cultura (ICC), em parceria com a professora Betzabeth Slater Villar. O ICC nasceu da convicção de que a alimentação não se resume à nutrição de nossos corpos, mas entrelaça cultura, vínculo, identidade e cuidado. Dessa visão floresce o programa Cozinhas & Infâncias, voltado a educadores da rede pública infantil de São Paulo, que é justamente o coração prático do estudo destacado nesta importante publicação da Universidade Estadual de Campinas. No artigo, Ariela e Betzabeth propõem uma metodologia inovadora em Educação Alimentar e Nutricional, tecida a partir de pensadores como Ken Wilber, Daniel Goleman, Peter Senge e o filósofo africano Bunseki Fu-Kiau. Em uma costura bonita e corajosa, as autoras refletem bem o jeito do ICC de olhar para a educação alimentar, com profundidade, cuidado e interseccionalidades. Ver esse trabalho reconhecido em um espaço acadêmico como este é motivo de celebração para todos nós do Instituto Comida e Cultura. Para ler o artigo na íntegra, visite o site da Revista Segurança Alimentar e Nutricional.