Em 27 de maio de 2026, representantes de organizações da sociedade civil, universidades, movimentos sociais, pesquisadores, educadores, profissionais da saúde e gestores públicos de diferentes países das Américas reuniram-se de forma virtual no Webinário Internacional Educação Alimentar e Nutricional nas Américas.
Promovido pela Colansa – Comunidade de Práticas Latinoamérica e Caribe Nutrição e Saúde, pelo Instituto Comida e Cultura (Brasil), pela Universidade Autônoma do Estado de Hidalgo (México) e pelo Movimento de Alimentação Saudável (Panamá), o encontro teve como propósito fortalecer o diálogo continental sobre a Educação Alimentar e Nutricional (EAN) e sua incorporação nos sistemas educacionais e nas políticas públicas.
Mais do que um espaço de apresentações institucionais, o webinário constituiu um exercício concreto de cooperação internacional. Inspirado na metáfora da Milpa, sistema ancestral de cultivo baseado na semeadura e na cooperação entre milho, feijão e abóbora, o encontro buscou demonstrar que a diversidade, a interdependência e a colaboração podem ser princípios orientadores para o fortalecimento da EAN em nossos territórios.
A participação superou as expectativas. O evento reuniu representantes de diversos países da América Latina, incluindo Brasil, México, Argentina, Colômbia, Costa Rica, Peru, Venezuela e Uruguai, além de participantes vinculados a universidades, programas de alimentação escolar, instituições governamentais, movimentos sociais, organizações comunitárias e grupos de pesquisa.
As avaliações registradas ao final do encontro revelaram ampla aprovação da iniciativa, com predomínio de respostas que classificaram o webinário como “Excelente” ou “Muito Bom”. Ainda mais significativo foi o interesse manifestado pelas e pelos participantes em integrar-se a futuras articulações, intercâmbios e ações colaborativas voltadas à Educação Alimentar e Nutricional nas Américas.

DESAFIOS COMPARTILHADOS
Embora os contextos territoriais sejam diversos, as respostas tiveram uma notável convergência em relação aos desafios enfrentados pelos diferentes países.
Entre os temas mais recorrentes, destacaram-se:
- A crescente influência dos alimentos ultraprocessados e da publicidade alimentar;
- A necessidade de institucionalizar a EAN nos currículos escolares de maneira efetiva e contextual;
- A formação de educadores e outros profissionais capazes de implementar ações permanentes, bem como a sensibilização constante dos implementadores já existentes;
- O fortalecimento das políticas públicas de alimentação e nutrição (como a alimentação escolar e a rotulagem de alimentos);
- A valorização das culturas alimentares locais e tradicionais;
- Oferecer suporte institucional e comunitário para ampliar o acesso a alimentos e preparações saudáveis, com ênfase no resgate de alimentos tradicionais;
- O enfrentamento das desigualdades sociais e territoriais que impactam a alimentação.
As contribuições das e dos participantes também suscitaram uma reflexão mais profunda sobre os próprios limites da expressão “Educação Alimentar e Nutricional”. Embora amplamente integrada às políticas públicas e aos marcos institucionais da região, essa denominação parece, em certa medida, insuficiente para abarcar a complexidade dos temas que emergiram ao longo do encontro.
Quando educadores, pesquisadores, nutricionistas, movimentos sociais e gestores falam de alimentação, falam também de cultura, memória, identidade, território, biodiversidade, ancestralidade, justiça social, relações ecológicas, modos de vida, sistemas produtivos, afetos e pertencimento. Trata-se de um campo que transcende a dimensão biológica e funcional dos nutrientes e da saúde individual.
Nesse sentido, o webinário abriu espaço para questionar se o termo “nutricional” ainda é capaz de expressar a amplitude da transformação que buscamos promover. Historicamente, a crítica ao nutricionismo já apontou os limites de abordagens que fragmentam os alimentos em componentes isolados, reduzindo a alimentação a uma questão técnica ou biomédica. As experiências compartilhadas pelas organizações e participantes das Américas indicam precisamente a necessidade de avançar rumo a perspectivas mais integrais, relacionais e territorializadas.
Talvez este seja um dos desafios para os próximos anos: construir coletivamente novas linguagens capazes de nomear uma educação que não se ocupe apenas dos nutrientes, mas das múltiplas relações que sustentam a vida. Uma educação comprometida com a diversidade biocultural, a soberania alimentar, os saberes dos povos, a sustentabilidade e a imaginação de futuros mais justos.
Mais do que encontrar de imediato uma nova denominação, trata-se de abrir uma conversa continental sobre quais palavras podem traduzir a grandeza do projeto educativo que estamos cultivando. Vale reconhecer que essa busca não parte do zero: já houve esforços para posicionar a Educação Alimentar e Nutricional (EAN) na América Latina e no Caribe como eixo articulador e transformador dos sistemas alimentares, bem como chamados para se contar com uma EAN mais articulada e efetiva. O reconhecimento desses antecedentes nos permite avançar sobre bases já construídas. Assim como a Milpa nos ensina que a vida floresce na convivência entre as diferenças, talvez também precisemos semear novos conceitos capazes de acolher a complexidade e a potência das transformações que desejamos construir nas Américas.
UMA AGENDA CONTINENTAL EM CONSTRUÇÃO
Ao serem convidados a refletir sobre quais agendas deveriam aproximar os países das Américas, os participantes apontaram um conjunto consistente de temas prioritários.
Entre eles, destacam-se:
- Segurança alimentar e nutricional;
- Combate à fome e às múltiplas formas de má nutrição;
- Alimentação escolar;
- Agroecologia e agricultura familiar;
- Regulação dos ultraprocessados;
- Soberania alimentar;
- Valorização das culturas alimentares tradicionais;
- Produção e consumo local de alimentos;
- Sustentabilidade dos sistemas alimentares;
- Formação de educadores e profissionais;
- Direitos dos povos indígenas, afrodescendentes, camponeses e comunidades tradicionais;
- Institucionalizar a EAN nos currículos escolares ou de educação básica dos países;
- Oferecer melhor suporte institucional e comunitário para que, a partir de diferentes âmbitos, se reduza o desperdício alimentar.
Essas convergências sugerem a existência de um terreno fértil para a construção de uma agenda latino-americana de Educação Alimentar e Nutricional capaz de articular diferentes experiências sem apagar as especificidades locais.
A MILPA COMO HORIZONTE
Um dos aspectos mais marcantes do encontro foi a potência simbólica da Milpa como referência para pensar a cooperação entre países.
Nas respostas dos participantes, a Milpa foi associada à valorização dos saberes ancestrais, à diversidade alimentar, à soberania alimentar, ao fortalecimento comunitário, à agroecologia e à construção coletiva de soluções.
A metáfora permitiu deslocar o olhar da lógica da competição para a lógica da colaboração; do monocultivo para a diversidade; da dependência para a autonomia; da colonização dos sistemas alimentares para a valorização dos patrimônios alimentares dos povos das Américas.
Assim como as espécies que compõem a Milpa crescem apoiando-se mutuamente, os participantes reconheceram que os desafios da Educação Alimentar e Nutricional exigem articulações entre educação, saúde, agricultura, cultura, meio ambiente e participação social.
PERSPECTIVAS FUTURAS
As respostas ao formulário também apontaram caminhos concretos para aprofundar a cooperação internacional iniciada neste webinário.
Entre os temas sugeridos para futuros encontros, destacam-se:
- Educação alimentar e nutricional na primeira infância;
- Alimentação escolar e currículo;
- Metodologias de EAN;
- Sistemas alimentares sustentáveis;
- Agroecologia;
- Soberania alimentar;
- Ambientes alimentares;
- Regulação dos ultraprocessados;
- Políticas públicas nas Américas;
- Culturas alimentares tradicionais;
- Segurança alimentar em contextos de vulnerabilidade;
- Formação de educadores, cozinheiras escolares e profissionais da saúde.
A diversidade dessas propostas revela não apenas o interesse dos participantes em seguir conectados, mas também a necessidade de consolidar espaços permanentes de intercâmbio e produção coletiva de conhecimento.
CONTINUANDO A SEMEADURA
O webinário Educação Alimentar e Nutricional nas Américas demonstrou que existem desafios compartilhados, mas também experiências inspiradoras distribuídas pelo continente.
Mais do que identificar problemas comuns, o encontro permitiu reconhecer a existência de uma comunidade de prática comprometida com a construção de sistemas alimentares mais justos, saudáveis, sustentáveis e culturalmente significativos.
Se a Milpa nos ensina que a vida floresce na diversidade e na cooperação, este encontro mostrou que também é possível cultivar uma rede continental de Educação Alimentar e Nutricional baseada no intercâmbio de saberes, no reconhecimento das diferenças e na construção coletiva de futuros desejáveis.
Uma semente foi plantada. O desafio agora é seguir cultivando esta rede.