NOTA DE REPÚDIO | Transporte público não é espaço para propaganda de refrigerante

O Instituto Comida e Cultura manifesta seu profundo repúdio à decisão da Prefeitura de Sorocaba (SP) de distribuir gratuitamente latas de Coca-Cola no transporte público da cidade.
A hora e a vez da Educação Alimentar e Nutricional: Seminário foi marcado por um convite à mobilização

Saiba como foi o evento que aconteceu no Instituto de Estudos Avançados da USP
Policy Brief defende Educação Alimentar nas escolas como resposta às epidemias de obesidade e mudanças climáticas

O Instituto Comida e Cultura (ICC) lança manifesto que defende a Educação Alimentar e Nutricional (EAN) como política pública estruturante.
Instituto Comida e Cultura e IEA promovem seminário sobre Educação Alimentar e Nutricional na USP

Evento discute o papel estratégico da Educação Alimentar frente à crise climática, às desigualdades sociais e à desinformação No dia 11 de agosto, acontece o seminário “A Hora e a Vez da EAN”, realizado a partir de uma parceria entre o Instituto Comida e Cultura (ICC) e o Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP. O evento, que também conta com o apoio da Cátedra Alfredo Bosi de Educação Básica da USP, tem como objetivo posicionar a Educação Alimentar e Nutricional (EAN) no centro dos debates sobre educação, cultura alimentar, saúde e justiça social. Com painéis e bate-papos entre especialistas para discutir políticas públicas, práticas educativas e o papel da alimentação na promoção da equidade e cidadania, a atividade acontece entre 14h e 18h, no IEA-USP, na Cidade Universitária, com transmissão ao vivo pelo YouTube. “O evento marca uma articulação potente entre sociedade civil, academia e poder público para fortalecer a educação alimentar e nutricional como prática contínua nas escolas e como política pública de impacto intersetorial. Queremos ampliar essa conversa, sensibilizar gestores e apoiar educadores na construção de uma agenda positiva e transformadora na garantia do Direito Humano à Alimentação Adequada”, comenta Patrícia Jaime, vice-diretora da Faculdade de Saúde Pública da USP e pesquisadora do IEA. Durante o seminário, será lançado o manifesto “A Hora e a Vez da Educação Alimentar”, documento que defende a EAN como política pública estruturante no contexto de sindemia global, que descreve a interseção de múltiplas epidemias como a obesidade, a desnutrição, as doenças crônicas não transmissíveis e as mudanças climáticas. O documento também apresenta sete recomendações aos gestores públicos para implementação efetiva da EAN nas escolas. Consulte o material completo aqui. O encontro é direcionado a profissionais de educação, saúde e assistência social e agricultura, além de professores, estudantes de graduação e pós-graduação, pesquisadores, gestores públicos e representantes de movimentos sociais e da sociedade civil organizada.
Educação Alimentar e Nutricional: uma resposta sistêmica à sindemia global

Artigo de Ariela Doctors e Brena Barreto Você já ouviu falar em sindemia? Esse termo está relacionado aos desafios que enfrentamos atualmente na saúde pública, principalmente quando falamos de alimentação, doenças crônicas e mudanças climáticas. Ele também nos ajuda a entender por que a Educação Alimentar e Nutricional (EAN), a Educação Sistêmica, e a Educação Ambiental são necessárias, principalmente na infância. O conceito de sindemia global descreve a interação entre três crises contemporâneas: obesidade, desnutrição e mudanças climáticas¹. Elas coexistem e se potencializam, compartilhando as mesmas causas, como sistemas alimentares insustentáveis e desigualdades sociais. Seus efeitos não são iguais para todas as populações, afetando desproporcionalmente grupos mais vulneráveis, como as crianças. Os efeitos da sindemia global na infância A má alimentação na infância, seja por excesso ou por deficiência de nutrientes, pode comprometer o crescimento físico e o desenvolvimento cognitivo ao longo da vida. Milhões de crianças em todo o mundo enfrentam simultaneamente as diferentes formas de má nutrição (como desnutrição, obesidade e deficiências nutricionais), em um contexto marcado pelo aumento do consumo de alimentos ultraprocessados. Esses produtos, estão associados a um maior risco de obesidade e outras doenças crônicas não transmissíveis². Somam-se a esse quadro os efeitos dos eventos climáticos extremos, como enchentes e secas, que impactam a produção de alimentos, dificultando o acesso a alimentos frescos e nutritivos. Crianças que vivem em comunidades de baixa renda e em zonas rurais estão entre as mais impactadas por essa realidade³. Diante dessa complexidade, precisamos de respostas que não se limitem a soluções pontuais ou técnicas. É nesse cenário que a EAN, aliada à Educação Ambiental e à Educação Sistêmica, se torna uma estratégia transformadora. Educação Sistêmica: enxergar as conexões A Educação Sistêmica propõe olhar o mundo de forma integrada4. Em vez de tratar saúde, alimentação, meio ambiente e cultura como temas separados, ela reconhece as interconexões entre eles. Essa abordagem convida escolas a integrarem saberes, territórios e afetos, promovendo uma aprendizagem significativa e comprometida com a vida. Quando aplicada à EAN, a visão sistêmica permite entender que comer não é apenas uma necessidade biológica, mas um ato cultural, político, ambiental e relacional. Ao desenvolver esse olhar nas crianças e jovens, a escola contribui para formar cidadãos conscientes do seu papel na transformação do mundo. A escola como espaço de transformação No Brasil, a Lei nº 11.947/2009 fortaleceu o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE)5, garantindo refeições saudáveis na escola e incentivando a compra de alimentos da agricultura familiar. Com a Lei nº 13.666/2018, a EAN passou a fazer parte do currículo escolar, reafirmando seu papel na formação integral. Mas a educação alimentar não se resume a conteúdos sobre nutrientes. Na prática, ela se manifesta em hortas pedagógicas, oficinas de culinária, rodas de conversa, visitas a feiras, projetos sobre agroecologia. Tudo isso ajuda os estudantes a refletirem: o que comemos? De onde vem? Como é produzido? Quem lucra e quem perde nesse processo? Educação alimentar e ambiental: o mesmo caminho A crise ambiental e alimentar têm uma raiz comum: um sistema que desrespeita os ciclos da natureza, os saberes tradicionais e os direitos humanos. Produção intensiva, uso de agrotóxicos, desperdício e emissão de gases de efeito estufa fazem da alimentação um dos principais vetores da destruição ambiental. Por isso, Educação Alimentar e Ambiental precisam andar juntas — e de forma sistêmica. Ao trabalhar com os estudantes os impactos do consumo alimentar, a valorização da cultura local, a importância da sociobiodiversidade e o respeito à terra, a escola contribui para uma mudança de consciência que se traduz em atitudes. Comer é um ato político e relacional Inspirada em Paulo Freire6, a EAN defende o diálogo, a escuta e a valorização das experiências alimentares dos sujeitos. Comer é um ato político, afetivo e identitário. É também um ato de pertencimento: ao corpo, à comunidade, ao território.Frente à sindemia global, uma educação com visão sistêmica é mais do que necessária — é urgente. Ela nos ajuda a compreender o mundo como uma teia de relações vivas, e nos convida a agir com consciência, responsabilidade e empatia.Educar para comer melhor é, também, educar para ser, conviver, transformar, reconhecer e defender direitos. E esse caminho pode começar no cotidiano das escolas! REFERÊNCIAS Sobre as autoras Ariela Doctors é coordenadora-geral e coautora dos processos pedagógicos do Instituto Comida e Cultura, é comunicadora, escritora e chef de cozinha. Membro do Conselho Educação e Território do Instituto Aprendiz, tem ampla experiência em educação sistêmica e cursa mestrado em Nutrição em Saúde Pública na USP. Brena Barreto Barbosa é pesquisadora e mentora do Sustentarea. É Mestra em Nutrição e Saúde pela Universidade Estadual do Ceará.
Como a educação alimentar se conecta ao meio ambiente?

Desnutrição, doenças crônicas não transmissíveis e a mudança do clima ditam o curso da contemporaneidade e afetam a vida das pessoas por todo o planeta. Trata-se de um cenário que exige ações de curto, médio e longo prazos, com a promoção de uma reconexão com a natureza e proteção das infâncias – as de hoje e as do futuro. A Educação Alimentar e Nutricional (EAN) se mostra uma importante aliada na construção de sociedades resilientes e saudáveis. Nesse contexto, o Instituto Comida e Cultura (ICC) trabalha a EAN transversalmente, lado a lado com a educação ambiental. “Sugerimos, primeiramente, olhar para nossos hábitos alimentares e para a realidade do nosso planeta, para então conseguirmos reparar uma reconexão humana com a natureza e com a alimentação saudável e adequada”, defende Daniella Brochado, coordenadora pedagógica e de relações étnico-raciais do ICC. “Comemos todos os dias para obtermos energia e saúde para viver com qualidade. Ou seja, é um hábito diário e essencial. Por ser um hábito diário, é capaz de se modificar e transformar estruturas e o nosso entorno.” O ICC acredita no alimento como indutor de uma sociedade sustentável e atua na formação de educadores, promovendo a conscientização sobre os sistemas alimentares e seus impactos na saúde, sociedade e meio ambiente. Ao olhar para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), é possível encontrar muitas conexões entre alimentação e meio ambiente, de forma que a abordagem que propõe uma educação alimentar e ambiental ganha força. Um exemplo é o ODS 2, que trata de alcançar a segurança alimentar e a melhoria da nutrição, ao mesmo tempo em que se promove a agricultura sustentável. Ensinar às crianças, desde cedo, o caminho do solo à refeição tem o potencial de prepará-las para um presente e um futuro mais saudáveis e bem nutridos, além de abrir caminhos para o cultivo sustentável dos alimentos. Pense na diferença que atividades pedagógicas em hortas e cozinhas escolares pode causar: plantar, selecionar, colher, preparar, cozinhar e descartar os alimentos na escola são hábitos conectados à vida em comunidade e a como as crianças veem o planeta. Levar a educação alimentar e ambiental a todas as escolas, desde a educação infantil, promove escolhas mais justas e saudáveis. Segurança e soberania alimentar, produção, transporte, distribuição, acesso, impactos ambientais, culturas alimentares, herança histórica e cultural, além de técnicas e modos de preparo, são temas presentes na construção da educação que precisamos proporcionar às crianças. É por meio dessa educação, completa e transversal, que será possível redesenhar o futuro. Conheça mais sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável que o ICC atrela a seu trabalho em educação alimentar e ambiental nos trechos destacados a seguir: ODS 2 – Fome zero e agricultura sustentável Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável. 2.1 Até 2030, acabar com a fome e garantir o acesso de todas as pessoas, em particular os pobres e pessoas em situações vulneráveis, incluindo crianças, a alimentos seguros, nutritivos e suficientes durante todo o ano. 2.2 Até 2030, acabar com todas as formas de desnutrição, incluindo atingir, até 2025, as metas acordadas internacionalmente sobre nanismo e caquexia em crianças menores de cinco anos de idade, e atender às necessidades nutricionais dos adolescentes, mulheres grávidas e lactantes e pessoas idosas. 2.3 Até 2030, dobrar a produtividade agrícola e a renda dos pequenos produtores de alimentos, particularmente das mulheres, povos indígenas, agricultores familiares, pastores e pescadores, inclusive por meio de acesso seguro e igual à terra, outros recursos produtivos e insumos, conhecimento, serviços financeiros, mercados e oportunidades de agregação de valor e de emprego não agrícola. ODS 3 – Saúde e bem-estar Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todas e todos, em todas as idades. 3.4 Até 2030, reduzir em um terço a mortalidade prematura por doenças não transmissíveis via prevenção e tratamento, e promover a saúde mental e o bem-estar. ODS 4 – Educação de qualidade Assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todas e todos. 4.2 Até 2030, garantir que todos as meninas e meninos tenham acesso a um desenvolvimento de qualidade na primeira infância, cuidados e educação pré-escolar, de modo que eles estejam prontos para o ensino primário. 4.5 Até 2030, eliminar as disparidades de gênero na educação e garantir a igualdade de acesso a todos os níveis de educação e formação profissional para os mais vulneráveis, incluindo as pessoas com deficiência, povos indígenas e as crianças em situação de vulnerabilidade. 4.7 Até 2030, garantir que todos os alunos adquiram conhecimentos e habilidades necessárias para promover o desenvolvimento sustentável, inclusive, entre outros, por meio da educação para o desenvolvimento sustentável e estilos de vida sustentáveis, direitos humanos, igualdade de gênero, promoção de uma cultura de paz e não violência, cidadania global e valorização da diversidade cultural e da contribuição da cultura para o desenvolvimento sustentável. 4.c Até 2030, substancialmente aumentar o contingente de professores qualificados, inclusive por meio da cooperação internacional para a formação de professores, nos países em desenvolvimento, especialmente os países menos desenvolvidos e pequenos Estados insulares em desenvolvimento. ODS 11 – Cidades e comunidades sustentáveis Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis. 11.4 Fortalecer esforços para proteger e salvaguardar o patrimônio cultural e natural do mundo. 11.6 Até 2030, reduzir o impacto ambiental negativo per capita das cidades, inclusive prestando especial atenção à qualidade do ar, gestão de resíduos municipais e outros. 11.b Até 2020, aumentar substancialmente o número de cidades e assentamentos humanos adotando e implementando políticas e planos integrados para a inclusão, a eficiência dos recursos, mitigação e adaptação às mudanças climáticas, a resiliência a desastres; e desenvolver e implementar, de acordo com o Marco de Sendai para a Redução do Risco de Desastres 2015-2030, o gerenciamento holístico do risco de desastres em todos os níveis. 11.c Apoiar os países menos desenvolvidos, inclusive por meio de assistência técnica e financeira, para construções sustentáveis e resilientes, utilizando materiais
Superar a lógica dos ultraprocessados exige cozinhar mais e debater gênero

Conteúdo publicado originalmente na Folha de S.Paulo, de autoria de Patricia Jaime Por trás da promessa de conveniência, substitui-se a refeição compartilhada pela embalagem unitária, o saber ancestral pela neutralidade tecnológica Alimentos ultraprocessados são produtos industriais que dominam as prateleiras e atravessam culturas. Provocam mudanças nos padrões alimentares em escala global, com elevação do risco para doenças crônicas, como trazido à tona de forma pioneira por pesquisadores brasileiros. Mas é pouco debatida a transformação causada pelas dietas ultraprocessadas nas relações sociais com a comida. Por trás da promessa de conveniência, há um processo silencioso: a substituição da refeição compartilhada pela embalagem unitária; da cozinha pelo microondas; do saber ancestral pela neutralidade tecnológica. O Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, recomenda: “Prefira sempre alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias a alimentos ultraprocessados”. Cozinhar, assim, não é só prática cotidiana: é central à promoção da saúde, da sustentabilidade e da cultura alimentar. Contudo, exige tempo, energia e conhecimento —recursos desigualmente distribuídos e pouco valorizados socialmente. É aqui que o debate exige atenção ao gênero. Historicamente, cozinhar tem sido visto como “coisa de mulher“, associado ao cuidado e ao ambiente doméstico. A construção cultural naturalizou a sobrecarga feminina na gestão alimentar e invisibiliza o valor desse trabalho. Dados do IBGE ilustram essa desigualdade: em 2022, entre trabalhadores remunerados, as mulheres dedicavam, em média, 17,8 horas semanais aos afazeres domésticos, contra 11 horas dos homens. Como argumenta Silvia Federici em “Calibã e a Bruxa”, a acumulação primitiva do capitalismo explorou o corpo feminino e desvalorizou saberes ligados ao cuidado —como parir, alimentar, cuidar, cozinhar. O trabalho reprodutivo das mulheres foi historicamente relegado ao espaço privado, fora da lógica do valor econômico. Ainda assim, muitas, sobretudo pretas e pardas, encontraram no cuidado e no trabalho doméstico formas de inserção no mercado de trabalho e sobrevivência. O reconhecimento legal desse trabalho é recente e ainda em construção. Não à toa as habilidades culinárias vêm diminuindo nas gerações mais jovens. Muitas mulheres, conscientes das desigualdades ou exaustas por jornadas duplas, afastam-se da cozinha ou recorrem aos ultraprocessados como alívio diante da sobrecarga. Reverter o cenário de crescente presença dos ultraprocessados na alimentação exige estratégias diversas e sensíveis às desigualdades sociais. Envolve políticas públicas de regulação, rotulagem, educação alimentar e acesso a alimentos saudáveis. Mas exige, sobretudo, reposicionar o debate de gênero como eixo estratégico. Superar a lógica dos ultraprocessados requer uma nova ética do cuidado que valorize cozinhar como bem comum, responsabilidade coletiva e prática transformadora. Resgatar o valor do cozinhar não é retorno nostálgico ao passado, nem nova culpa imposta às mulheres. É reconhecer que o saber tem potência decisiva para a saúde pública e a equidade. Os desafios ambientais e de saúde exigem maior acesso a alimentos saudáveis, não só no lar mas também em locais de trabalho, escolas, hospitais, centros comunitários e espaços de mobilidade. É estratégico posicionar o ato de cozinhar para além da vida privada, transpô-lo ao espaço público, criando alternativas concretas para que todos possam comer comida de verdade, preparada por cozinheiras e cozinheiros valorizados e remunerados por seu trabalho. Leia o artigo completo no site da Folha de S.Paulo. Sobre a autora Patricia Jaime é nutricionista, professora titular da Faculdade de Saúde Pública da USP, coordenadora científica do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens-USP) e conselheira do Instituto Comida e Cultura.
No caminho da luz, todo mundo é preto: educação alimentar racializada para sistemas alimentares mais justos e saudáveis

Artigo de Bruna Crioula, Letícia Borges e Natália Escouto, curadoras da Crioula Curadoria Alimentar “No caminho da luz, todo mundo é preto.” Essa frase, imortalizada na canção Principía, de Emicida, ilumina um princípio fundamental: se a luz é a convergência de todas as cores, a educação alimentar racializada é um chamado para se reencontrar e incorporar pela centralidade da negritude na construção dos saberes alimentares que sustentam nossas comunidades. Alimentação é memória, tecnologia social e conexão com o sagrado. Comer é um ato carregado de sentidos, e nesse ato reconhecemos que a comida é também história, cultura e patrimônio que precisa ser cuidado, zelado e difundido entre gerações de forma contínua e permanente. Aprendemos com nossas mestras, mestres e matriarcas, como Nego Bispo e Makota Valdina, que a alimentação nunca foi apenas sobre nutrientes e calorias, mas sobre pertencimento e autonomia. Fomos socializados a partir de uma visão eurocêntrica que nos afastou das conexões ancestrais que sempre nos foram passadas através do alimento. Mas comida é resgate. Sabor e estética se confundem com histórias e sensações. Cada tempero, cada prato, cada ritual ao redor da mesa carrega ensinamentos que sobrevivem ao tempo. A Crioula Curadoria Alimentar nasce desse desejo de reencontro. Trabalhamos para fortalecer saberes africanos e indígenas sobre alimentação, promovendo uma educação alimentar que respeita e valoriza a diversidade dos sistemas alimentares tradicionais. Nossa ESCOLACrioula – ancestralidade alimenta é um espaço de aprendizado e compartilhamento, onde a comida volta a ocupar seu lugar como ferramenta de saúde, soberania alimentar e justiça social. Nosso curso “Alimentação Saudável numa Afroperspectiva” questiona o que significa se alimentar bem. O que é saúde quando olhamos desde as cosmovisões negras e diaspóricas? Como os alimentos tradicionais das nossas culturas sustentaram vidas e resistências por séculos? Mergulhamos nos saberes alimentares que sempre promoveram equilíbrio, longevidade e bem-estar, antes mesmo que a ciência ocidental os validasse. Saúde não é apenas ausência de doença, mas também prazer, memória e conexão com a terra. Já em “Mato é Comida? Conheça as PANC ancestrais”, nos aproximamos da sociobiodiversidade alimentar e o conhecimento sobre as Plantas Alimentícias Não Colonizadas (PANC ancestrais), que sempre estiveram presentes nas cozinhas quilombolas, indígenas e periféricas. Muitas dessas plantas, hoje esquecidas ou marginalizadas, já foram fundamentais para a segurança alimentar de nossas comunidades. Resgatar esses saberes é um ato de autonomia e resistência. Imaginamos um mundo onde a merenda escolar invada as salas de aula, onde professores utilizam uma receita ou um ingrediente para ensinar história, geografia e ciências. Onde cozinhas comunitárias se tornam espaços de aprendizado, onde agricultoras, merendeiras e cozinheiras de quilombos e terreiros compartilham seu conhecimento como protagonistas de uma nova educação alimentar. Precisamos romper com a lógica de que aprender sobre comida é um exercício distante de quem cozinha, planta e cuida da alimentação. Pensar em uma educação alimentar racializada é partir de um berço cultural africano e diaspórico, onde a relação entre ser humano e natureza é de integração e não de exploração. É aprender a olhar para nossos sistemas alimentares com a consciência de que a monocultura, a fome e a desnutrição são construções coloniais. É resgatar o que sempre foi nosso: a autonomia sobre o que plantamos, preparamos e comemos. Se nossos pratos são janelas para entender o mundo, queremos que cada refeição seja um convite à memória, à identidade e à transformação. No caminho da luz, todo mundo é preto. E a Crioula Curadoria Alimentar segue abrindo caminhos para que essa luz brilhe cada vez mais forte cozinhando ideias para futuros nutridos. Sobre as autoras Bruna Crioula – nutricionista ecológica, mestre em Ciências. Matrigestora da Crioula Curadoria Alimentar e Coordenadora Geral da ESCOLACrioula – ancestralidade alimenta. Natália Escouto – gastróloga, pesquisadora e educadora alimentar. Especialista em Educação Alimentar. Curadora e Coordenadora Pedagógica na Crioula Curadoria Alimentar. Escreve sobre alimentação no projeto Cozinhe sua História. Letícia Borges – cozinheira, idealizadora e gestora da Folias Gastronômicas, educadora alimentar, e entusiasta das PANC ancestrais. Oferecer esse conhecimento usando as possibilidades encontradas na natureza e transformar a relação das pessoas com o alimento é seu propósito. Focalizadora de Danças Circulares Sagradas, doula, mãe do João e do Pedro. Filha de Terezinha e neta de Isaltina, poeta e curadora na Crioula Curadoria Alimentar.