Do cerrado à alimentação escolar: a caminhada do baru até a mesa das crianças

12 de março, 2026
Foto: Jovens Vivendo no Campo / Grupo Semente

Em março de 2026, os primeiros quilos de farinha de baru começaram a chegar às escolas do município de Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso. Ainda é um começo, pequeno diante da abundância dos frutos do cerrado, mas cheio de significado. 

Fruto nativo deste bioma, escondido dentro de uma vagem dura que cai das árvores entre outubro e janeiro, o baru guarda uma castanha pequena e nutritiva, que há séculos alimenta comunidades tradicionais, mas que nunca esteve presente nas escolas públicas da região.

Agora, a chegada do fruto aos ambientes escolares deve ser motivo de celebração! Uma articulação entre o Instituto Comida e Cultura a a Secretaria Municipal de Educação e organizações locais – como o Grupo Semente e a Associação Jovens Vivendo no Campo, que reune familias agroextrativistas das comunidades rurais Batatais, Capão das Vacas, Angical e vizinhas – garantiu que a chamada pública do PNAE passasse a incluir produtos da sociobiodiversidade local, como a polpa de pequi e a farinha de baru torrada.

Colheita do Baru. Foto: Jovens Vivendo no Campo / Grupo Semente
Colheita do Baru. Foto: Jovens Vivendo no Campo / Grupo Semente

Apesar da vitória, transformar realidades e sistemas alimentares exige muito mais do que uma legislação adequada. “Não adianta estar só na lei ou nas orientações nacionais sobre a importância da biodiversidade nos cardápios”, explica Solène Tricaud, consultora do Instituto Comida e Cultura,coordenadora de projetos e educadora no Grupo Semente. “É preciso um trabalho próximo de toda a cadeia: produtores, gestores, nutricionistas, merendeiras e escolas.”

A experiência mostrou também os desafios desse caminho. Muitas vezes, produtores locais não conseguem acessar as chamadas públicas ou as secretarias mantêm relações tradicionais com fornecedores maiores e mais hábeis à burocracia. Por isso, o trabalho de articulação e incidência é constante. E o ICC é parte disso!

“Existem fragilidades em todos os pontos da cadeia”, conta Solène. “Mas é possível fazer acontecer — desde que exista articulação e presença no território.”

Um alimento que carrega presente, passado e futuro

A chegada do baru às escolas é, portanto, uma vitória coletiva. Uma conquista construída pelo trabalho de agricultores organizados, por redes locais e por organizações da sociedade civil que atuam para fortalecer o direito à alimentação adequada e saudável.

Agora, desejamos que cada nova entrega de farinha de baru carregue o trabalho de agricultores familiares, a persistência do movimento social, o diálogo com o poder público e a construção paciente de uma rede que acredita que a comida também educa.

Mais do que um caso isolado, essa experiência mostra que caminhos possíveis já existem. Quando políticas públicas encontram o território e quando redes se mobilizam para fazer acontecer, soluções locais ganham força e podem inspirar ações parecidas no Brasil e no mundo. 

É isso que aprendemos com o baru, com sua casca grossa e seu miolo macio: abrir caminhos exige persistência. Mas, quando a biodiversidade local chega à mesa dos estudantes, também se abre um presente e se estabelece um futuro onde comida, cultura, natureza e ancestralidade caminham juntas.

Foto: Jovens Vivendo no Campo / Grupo Semente

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