Da Agricultura Familiar e dos Territórios tradicionais para a mesa dos alunos: Projeto Terra Nutre fortalece alimentação escolar saudável em Mato Grosso

Dos territórios tradicionais e da agricultura familiar para os pratos das escolas, o projeto Terra Nutre nasce com o propósito de ampliar o acesso de estudantes da rede pública de Mato Grosso a alimentos saudáveis e tradicionais, valorizando a produção local por meio da educação alimentar e da geração de renda no campo e nas comunidades tradicionais. Segundo o Atlas Mundial da Obesidade 2026, o Brasil possui cerca de 7 milhões de crianças e adolescentes, entre 5 e 19 anos, vivendo com obesidade e sob risco de desenvolver doenças como diabetes e hipertensão. Para enfrentar esse cenário, o Terra Nutre busca fortalecer o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), incentivando a inserção de alimentos frescos, tradicionais e locais. A iniciativa promove segurança alimentar para os estudantes, gera renda para quem produz e contribui para a proteção do meio ambiente, já que a agricultura familiar e os sistemas agrícolas tradicionais respeitam os tempos da natureza e os ciclos da vida. Um importante instrumento nesse processo é a lei 15.226/25, que prevê que, no mínimo, 45% dos recursos destinados à alimentação escolar e repassados pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) aos estados e municípios sejam utilizados na compra de alimentos da agricultura familiar. É por meio do PNAE que os agricultores familiares e povos tradicionais têm a oportunidade de comercializar sua produção, beneficiando também os estudantes, muitos deles filhos e filhas das próprias pessoas produtoras. Mas como garantir que esses alimentos saudáveis cheguem aos estudantes? É preciso ampliar a capacidade produtiva desses atores, fortalecer suas organizações sociais e expandir as possibilidades de comercialização, especialmente por meio das compras públicas. É o que explica a diretora-adjunta do Instituto Centro de Vida (ICV), Camila Rodrigues: “Do lado da compra, queremos que as entidades executoras como as prefeituras e outros órgãos, estejam sensibilizadas. Com isso, esperamos que a aquisição de alimentos locais e saudáveis também se amplie, melhorando a qualidade da alimentação escolar.” Uma das áreas de atuação do projeto é o Território Indígena do Xingu (TIX), onde os alimentos tradicionais abastecem as escolas desde o início dos anos 2000, quando elas começaram a ser implementadas. “Observamos as crianças comendo murici, pequi, mel, mangarito, peixes, polvilho e farinha, alimentos que são entregues pelos seus familiares. Esse é um resultado da autodeterminação dos povos e de rearranjos na política pública que inspiram sua execução em outros territórios”, explica a antropóloga do Instituto Socioambiental (ISA), Luísa Tui, que faz parte da equipe do Terra Nutre. Ela destaca ainda que a soberania alimentar é uma pauta central para os povos do Xingu, mas que os desafios permanecem. Entre eles estão as adaptações necessárias nas formas de produção diante das mudanças nos ciclos das águas e dos impactos causados pela ocupação no entorno dos territórios, além de entraves burocráticos que muitas vezes desconsideram a realidade das comunidades. O coordenador de subprojeto no Centro de Tecnologia Alternativa (CTA), Ronaldo Adriano, considera que deve ser dada atenção ao cumprimento dos contratos. “Ainda há espaço de melhoria no cumprimento da lei. De um lado, temos as organizações com demanda e se preparando para participar cada vez mais dos chamamentos públicos; e por outro lado, as entidades executoras que precisam dar eficiência na operacionalização das compras dos alimentos locais e no cumprimento dos 45%. Um dos grandes desafios que vemos é garantir que os contratos assinados não sejam interrompidos.” Um dos instrumentos de ação do Terra Nutre é a elaboração de diagnósticos produtivos das organizações, com o objetivo de mapear esses desafios e identificar caminhos para fortalecer a execução do PNAE. O coordenador do CTA explica que o mapeamento trará indicativos claros que apoiarão a execução do PNAE. A agricultura familiar e os sistemas agrícolas dos povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais são referências na produção de alimentos em equilíbrio com a natureza. Essas pessoas produtoras desenvolvem práticas que preservam o meio ambiente e promovem o cuidado com a água, a biodiversidade e o clima. Ainda assim, seus produtos seguem enfrentando dificuldades para acessar mercados e ampliar a comercialização. Essa articulação entre produção sustentável e alimentação escolar é o que move o consórcio de instituições responsável pelo Terra Nutre. O projeto é financiado pelo Fundo Amazônia/BNDES, no âmbito da iniciativa Amazônia na Escola, e executado pelo Instituto Centro de Vida (ICV) em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), o Centro de Tecnologia Alternativa (CTA), o Instituto Comida e Cultura (ICC), o Instituto Comida do Amanhã (CdA), o Instituto Conexões Sustentáveis (Conexsus) e a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso (Funadif). O Terra Nutre também conta com Acordos de Cooperação Técnica com a Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso (Seduc-MT) e com as prefeituras de Paranaíta, Nova Bandeirantes, Carlinda, Alta Floresta, Porto Esperidião, Vila Bela da Santíssima Trindade, Mirassol d’Oeste, Poconé, Nossa Senhora do Livramento e Guarantã do Norte, além do apoio do Ministério Público Federal (MPF), no âmbito das ações da Catrapovos-MT. “É uma coordenação de esforços que irá apoiar, na prática, quem produz de forma sustentável e quem compra esses alimentos por meio do PNAE”, finaliza a diretora-adjunta do Instituto Centro de Vida (ICV).
Alimentação saudável nas escolas e o papel da EAN nas políticas públicas. Saiba mais sobre nossa viagem mais recente a Brasília!

No dia 20 de maio de 2026, o Instituto Comida e Cultura esteve em Brasília para participar do evento “Alimentação Saudável nas Escolas Brasileiras: Experiências Locais e Perspectivas Nacionais”, realizado no âmbito do programa Alimenta Cidades, coordenado pela Profa. Larissa, do GEPPAAS/UFMG. Nossa Coordenadora Geral Ariela Doctors representou o ICC em um espaço que reuniu representantes do governo federal, do legislativo, da academia e da sociedade civil — entre eles o IDEC, a ACT Promoção da Saúde, a Instituto Desiderata, o Unicef, o CONSEA Nacional, o Ministério do Desenvolvimento Agrário e o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social. Com tantas vozes potentes, foi um encontro denso, plural e necessário! A contribuição do ICC ao debate foi trazer uma perspectiva ampliada sobre a proteção do ambiente alimentar escolar, como já defendemos em outros espaços. Para nós, mais do que restringir a oferta de ultraprocessados (pauta urgente e inegociável, certamente ), é preciso construir mecanismos reais de implementação das políticas já existentes e pensar na Educação Alimentar e Nutricional como ferramenta estruturante. Ou seja, defendemos a existência de resoluções efetivas, planos de ação concretos e responsabilização nos níveis municipal, estadual e federal. Sem isso, os marcos legais ficam no papel. Por lá, também buscamos defender que a Educação Alimentar e Nutricional precisa ser entendida como processo contínuo de formação, que começa na primeira infância e forma sujeitos críticos, autônomos e conscientes do seu direito à alimentação adequada para a vida toda. Assim, a gente acredita que a EAN não é um complemento, mas parte essencial e sistêmica de qualquer política séria de alimentação escolar. O evento foi ainda um rico espaço de articulação. Ariela dialogou com o parlamentares, colegas do terceiro setor e com pesquisadores e organizações que compõem esse campo tão fundamental. Seguimos presentes com nosso trabalho de incidência política para levar a missão do ICC para para espaços onde as políticas se constroem. Até a próxima!
ICC no CONBRAN 2026: incidência em Curitiba sobre culturas alimentares nas políticas públicas

Em maio de 2026, o Instituto Comida e Cultura esteve presente em Curitiba para um dos encontros mais importantes do setor de nutrição no Brasil: o XXIX Congresso Brasileiro de Nutrição, o CONBRAN 2026, realizado de 12 a 15 de maio. A convite do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, nossa co-fundadora Juliana Furlaneto Benchimol representou o ICC no stand institucional do MDS, participando do debate sobre o Marco de Referência de Culturas Alimentares para as Políticas Públicas. No espaço, ela contribuiu com reflexões sobre como valorizar as culturas alimentares dentro das políticas públicas e dialogou com profissionais, pesquisadores e gestores que compõem esse campo tão essencial. Além do debate, acompanhamos palestras, mesas e discussões técnicas ligadas à agenda de segurança alimentar e nutricional, fortalecendo conexões institucionais e o intercâmbio de saberes. Esse tipo de presença importa muito para o ICC. O CONBRAN é um dos principais espaços onde se pensa e se disputa o futuro das políticas públicas e regulações sobre alimentação no país. E é justamente ali que queremos estar, contribuindo para que a Educação Alimentar e Nutricional (EAN) se torne uma ferramenta cada vez mais concreta e efetiva nas escolas brasileiras. Agradecemos ao Ministério pelo convite e pela confiança. Seguimos juntos nessa construção!
Pesquisa sobre a metodologia do ICC é publicada em revista da Unicamp

A Revista Segurança Alimentar e Nutricional, da Unicamp, publicou nesta edição um artigo assinado por Ariela Doctors, Diretora Geral do Instituto Comida e Cultura (ICC), em parceria com a professora Betzabeth Slater Villar. O ICC nasceu da convicção de que a alimentação não se resume à nutrição de nossos corpos, mas entrelaça cultura, vínculo, identidade e cuidado. Dessa visão floresce o programa Cozinhas & Infâncias, voltado a educadores da rede pública infantil de São Paulo, que é justamente o coração prático do estudo destacado nesta importante publicação da Universidade Estadual de Campinas. No artigo, Ariela e Betzabeth propõem uma metodologia inovadora em Educação Alimentar e Nutricional, tecida a partir de pensadores como Ken Wilber, Daniel Goleman, Peter Senge e o filósofo africano Bunseki Fu-Kiau. Em uma costura bonita e corajosa, as autoras refletem bem o jeito do ICC de olhar para a educação alimentar, com profundidade, cuidado e interseccionalidades. Ver esse trabalho reconhecido em um espaço acadêmico como este é motivo de celebração para todos nós do Instituto Comida e Cultura. Para ler o artigo na íntegra, visite o site da Revista Segurança Alimentar e Nutricional.
O que aprendemos sobre Educação Alimentar Nutricional com Patricia Jaime
No dia 30 de abril, vivemos mais um encontro especial da nossa agenda anual de formações internas. Esses momentos especiais reúnem a equipe contratada e voluntária do ICC com o objetivo de ampliar saberes e fortalecer a base conceitual de quem faz o instituto existir e pulsar. Este foi o segundo encontro do ciclo, que estreou com um lindo dia de trocas no Condô Cultural. Desta vez, tivemos a alegria de contar com Patricia Jaime, nossa conselheira, professora da Faculdade de Saúde Pública da USP e uma das principais referências brasileiras em Nutrição e Saúde Pública. Juntas, mergulhamos na Educação Alimentar Nutricional (EAN) como campo de conhecimento e como ferramenta de política pública. Vem saber como foi esse encontro cheio de aprendizados! Primeiro passo: o que é EAN? Para abrir a conversa, Patricia acolheu a turma com uma contextualização sobre o que é a Educação Alimentar Nutricional e o campo de prática intersetorial e interdisciplinar que busca promover a autonomia de indivíduos e comunidades nas suas escolhas alimentares. Com sensibilidade e profundidade, ela trouxe aspectos biológicos, culturais, sociais, econômicos e ambientais, mostrando como esse tema vai muito além do setor de saúde e da atuação de nutricionistas. Com lugar de fala e conhecimento de causa, a professora e conselheira do ICC participou diretamente da construção de dois documentos centrais para a EAN no Brasil: o Marco de Referência de EAN para Políticas Públicas (2012) e o Guia Alimentar para a População Brasileira (2014), dois marcos que seguem iluminando o trabalho de profissionais, organizações e gestores públicos que atuam nos sistemas alimentares. Por isso, Patrícia também nos guiou pela trajetória da EAN no Brasil e como esse conceito está ancorado em três direitos fundamentais: o direito à saúde, o Direito Humano à Alimentação Adequada e Saudável, e o direito à informação. O que esse encontro nos trouxe Por fim, além da base conceitual, a conversa nos levou por temas como o vínculo entre acesso à terra e direito à alimentação, o papel dos guias alimentares no enfrentamento aos ultraprocessados, e a importância de aproximar universidade e sociedade civil na difusão desse conhecimento. Certamente, saímos do encontro com a certeza de que o programa Cozinhas & Infâncias também é uma das ferramentas dessa prática, já que constroe um espaço onde a EAN deixa de ser conceito e passa a acontecer no cotidiano das escolas e famílias, na vida das crianças, na escuta, nas escolhas e nas histórias que se constroem à mesa.
Entre a FOMO e a fome: As big techs vão nos devorar?

Vício em telas explorado por corporações se conecta a várias esferas da vida: da difusão de ultraprocessados à alimentação precária com celulares em mão
Estudo mostra como peixe chega à alimentação escolar

Pesquisa comparativa ouviu 2.330 profissionais entre nutricionistas e merendeiras sobre desafios, percepções e avanços da inclusão do pescado na alimentação escolar
Organizações de Brasil, México e Panamá realizam webinar internacional sobre Educação Alimentar e Nutricional nas Américas

Evento reúne representantes das três Américas para debater avanços e estratégias conjuntas na inserção da EAN nos currículos escolares e nas políticas públicas
Ultraprocessado na cantina: proibir basta?

Confira a entrevista com a pesquisadora Laura Scaciota sobre como integrar a Alimentação Escolar e a Educação Alimentar e Nutricional (EAN)
Cozinhas & Infâncias Par-trilhas: nossa estreia em um novo território de encontros

No dia 17 de abril foi a estreia do Cozinhas & Infâncias Par-trilhas, uma expansão do programa do Instituto Comida e Cultura.