Do ouriço de batata doce a uma praça da Cidade Tiradentes: o encontro que o Cozinhas & Infâncias tornou possível

Bianca Kodato é voluntária do Instituto Comida e Cultura (ICC) e mora no Canadá. Ana Lucia Barros é cozinheira escolar da rede pública municipal de São Paulo, na EMEF Camilo Castelo Branco. As duas se conheceram em uma formação do Programa Cozinhas & Infâncias e, meses depois, esse encontro se transformou em um dia de Educação Alimentar e Nutricional em Cidade Tiradentes, bairro na zona leste de São Paulo, onde Ana cresceu. Vem saber mais sobre essa história! Brigadeiros, conversas e interesses em comum Foi em uma das formações do Programa Cozinhas & Infâncias, na Faculdade de Saúde Pública da USP, que Bianca e Ana se conheceram. A dupla foi colocada para trabalhar junta em uma das atividades práticas do curso: a feitura de um brigadeiro diferente, que leva batata doce e cacau. Foi ali, entre uma etapa e outra da receita, que a conversa começou: “A gente estava lá no curso. Eu fui pela escola onde trabalho, a Bianca também tava fazendo um projeto que era super relacionado com a formação. Aí a gente começou a conversar e já nos tornamos amigas”, contou Ana. A partir daí, para além das trocas do encontro presencial, as duas entenderam que tinham interesses em comum por entenderem a comida como caminho de conexão e de memória. Como explicou Ana, a formação do programa Cozinhas & Infâncias trabalhou justamente essa ideia: “O interesse era o alimento junto com o projeto, que é a mesa. E a gente achou super interessante porque nós aprendemos sobre comida de alma e lembramos das nossas infâncias também.” Do Cozinhas & Infâncias ao projeto Mesa Aqui e Ali Depois do encontro presencial, Bianca e Ana mantiveram contato, e essa aproximação deu origem à edição na Cidade Tiradentes do Mesa Aqui e Ali, projeto criado por Bianca, que leva uma mesa modular para diferentes espaços urbanos. Em cada parada, acontece uma refeição aberta ao público, criando um espaço de encontro, conversa e troca sobre a alimentação e sobre como, por meio da comida, podemos nos relacionar, cuidar uns dos outros e imaginar outras formas de viver juntos. Cidade Tiradentes, bairro onde Ana vive, foi escolhida como uma das paradas do projeto. Ali, em uma praça, aconteceu um dia de atividade de Educação Alimentar e Nutricional aberto à comunidade, com comida, conversa e escuta. “Pra mim, trazer essa atividade pra onde eu cresci, foi um prazer e um aprendizado. Porque foi uma coisa totalmente diferente da minha realidade… a gente não vive muito isso aqui“, lembrou Ana O que ficou da formação  Durante o encontro, Ana também contou o que a formação do Cozinhas & Infâncias mudou na sua prática como cozinheira escolar. Entre os aprendizados, ela destaca o cuidado com o uso integral dos alimentos e a redução da dependência de proteína animal em cada preparo: “Aprendi que nem tudo a gente precisa de proteína. Até trouxe aqui pras escolas, conversei com a minha nutricionista, passei pra ela muitas coisas legais que eu aprendi, e quero levar isso pra vida.” Uma formação que ultrapassa o chão da escola A história de Bianca e Ana ilustra o alcance do Programa Cozinhas & Infâncias: uma formação em Educação Alimentar e Nutricional que ultrapassa o espaço da sala de aula e se desdobra em novos projetos, parcerias e territórios. Do encontro entre uma voluntária e uma cozinheira escolar nasceu um lindo encontro. Para o ICC, esse é um exemplo concreto de como a Educação Alimentar e Nutricional pode gerar impactos que vão além do chão da escola, e reforça o compromisso do Instituto em seguir formando pessoas capazes de transformar essa aprendizagem em ação nos territórios onde vivem.

“Escutar histórias de alimentação também é fazer saúde coletiva”: entrevista com Lucia Guerra sobre nossa primeira pesquisa qualitativa

No dia 30 de julho, o Instituto Comida e Cultura (ICC) lançou os resultados da pesquisa qualitativa “Interseccionalidade, Comida e Educação Alimentar e Nutricional (EAN): a História Oral de Professoras de Escolas Públicas do Município de São Paulo-SP“, desenvolvida no âmbito do Programa Cozinhas & Infâncias. O lançamento acontceu durante o Seminário:Saberes da Boca pra Boca, que ocorreu no IEA-USP, com a presença das professoras Maria Aparecida Vieira, Priscila Aparecida Santos, Hélia de Lourdes, Bárbara de Souza e Zaíra Kury, gestores de políticas públicas, pesquisadores e profissionais da área da alimentação escolar. O estudo ouviu cinco educadoras da rede pública municipal de São Paulo, formadas pelo programa em 2023, e usou a história oral como estratégia metodológica para compreender como a alimentação atravessa suas identidades, memórias e práticas pedagógicas. Baixe aqui o relatório completo da pesquisa em PDF Para entender melhor os fundamentos teóricos e metodológicos por trás da pesquisa, conversamos com Lucia Guerra, nutricionista, pesquisadora-colaboradora do ICC e uma das responsáveis pela condução do estudo. Na entrevista abaixo, ela explica por que a história oral foi escolhida como método central, como a interseccionalidade de Patrícia Hill Collins foi aplicada na prática, o que mais a tocou nas narrativas das professoras, e o que a pesquisa qualitativa tem a contribuir para a disputa por políticas públicas mais eficientes. Confira a entrevista completa a seguir: ICC: A pesquisa usa a história oral como método central. Por que essa escolha? O que esse método permite acessar que outros dispositivos de pesquisa não alcançam? Lucia Guerra: A escolha da história oral foi fundamental porque a pesquisa não queria apenas saber o que as professoras aprenderam, mas compreender como suas histórias de vida, memórias, identidades e experiências foram mobilizadas pela formação vivida através do Programa Cozinhas & Infâncias. A oralidade, estratégia investigativa central do método qualitativo da história oral, foi entendida não apenas como uma técnica para coletar informações, mas como um campo epistemológico próprio, capaz de produzir uma dimensão viva do conhecimento. Quando perguntamos “quem te ensinou a comer?”, “quem te ensinou a cozinhar?” ou “qual é a sua lembrança mais antiga relacionada à alimentação?”, estamos acessando dimensões que dificilmente apareceriam em um questionário estruturado e de abordagem metodológica quantitativa. Aparecem os afetos, os cheiros, os sabores, as relações familiares, as marcas de classe, raça, gênero, identidade, as experiências de infância, os territórios e as ancestralidades. Isso ficou muito evidente nas narrativas. A comida apareceu não simplesmente como alimento, mas como memória, linguagem, identidade, cuidado e pertencimento. A história oral permitiu, portanto, perceber a relação entre aquilo que essas mulheres viveram e aquilo que hoje fazem como professoras. O método da história oral permite acessar a dimensão subjetiva e vivida dos processos históricos, capturando a interseção entre a memória individual, as trajetórias de vida e a experiência social coletiva — uma esfera frequentemente negligenciada ou invisibilizada por caminhos metodológicos com abordagens de matriz positivista. Sob o ponto de vista teórico-metodológico, a história oral não busca apenas averiguar o “fato” objetivo, mas compreender o significado e a elaboração simbólica atribuídos ao acontecido por quem o vivenciou, reconhecendo a subjetividade não como um viés a ser corrigido, mas como o próprio objeto de investigação. Na dimensão analítica, ela evidencia a agência histórica de sujeitos marginalizados (como populações periféricas, minorias étnico-raciais e mulheres) ao revelar como essas narrativas desafiam, tensionam ou reconfiguram as hegemonias existentes e a memória oficial. Na prática da pesquisa, o dispositivo da entrevista em profundidade com o uso da história oral institui uma relação dialógica única entre pesquisador e o sujeito da pesquisa. Há ainda uma dimensão política: escutar é reconhecer essas mulheres como produtoras de conhecimento. A pesquisa não trata suas falas como simples ilustrações de uma teoria, de um método investigativo; elas são parte da produção do conhecimento, elas co-produzem junto conosco o caminho da remontagem de sua própria história de experiência existencial como ser humano e como professoras. Por isso os resultados da pesquisa falam em “co-produção dos dados”. As entrevistas narrativas foram organizadas a partir de cinco eixos — identidade; memórias de comida e cultura; trajetória profissional; Direito Humano à Alimentação Adequada e Saudável (DHAAS), Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) e Educação Alimentar e Nutricional (EAN); e experiência formativa — e posteriormente revistas por meio de análise de conteúdo-temática. ICC: A interseccionalidade de Patrícia Hill Collins é uma das lentes analíticas da pesquisa. Como ela foi aplicada na prática? O que significa olhar para as trajetórias dessas professoras através dessa lente? LG: Na prática, a interseccionalidade significou não olhar para gênero, raça ou classe como categorias separadas, mas procurar compreender como essas dimensões se articulam e produzem experiências concretas através de um método investigativo que constrói outras relações de poder e do saber sobre a existência individual e coletiva. A pesquisa parte da compreensão de Patricia Hill Collins — contato inicial e formativo da equipe de pesquisadoras, ampliado posteriormente com o aporte constitutivo de autores e autoras brasileiras como Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Conceição Evaristo, Abdias Nascimento e Carolina Maria de Jesus, entre tantos outros que evidenciam de forma brilhante esse caminho na América Latina e no Caribe — de que a interseccionalidade permite investigar como relações interseccionais de poder influenciam as relações sociais e as experiências individuais da vida cotidiana. O estudo mobilizou especialmente as categorias de gênero, raça, classe, identidade e território. Isso muda bastante a pergunta de pesquisa. Em vez de perguntar simplesmente “por que essa mulher se tornou professora?”, perguntamos: que relações de gênero, raça, classe, território, cuidado e trabalho atravessaram sua trajetória até chegar à prática do ensino, como professora? E as narrativas mostraram justamente que essas dimensões não estão separadas, ao contrário, estão profundamente entrelaçadas e são indissociáveis. Há, por exemplo, a trajetória de uma entrevistada que trabalhou durante 18 anos como diarista e que foi incentivada por suas patroas, professoras, a estudar e prestar um concurso público — tornando-se professora. Em outra trajetória, aparece a experiência de crescer em um bairro periférico e em uma organização social, onde a solidariedade

Educação alimentar como prática coletiva: ICC participa do III Encontro Internacional de Alimentação Escolar da UniRio

Adulto mostra um pequeno rabanete para uma criança, em uma horta.

Nos dias 22 e 23 de setembro, a UniRio recebe o III Encontro Internacional de Alimentação Escolar, Inovação e Sustentabilidade, e o ICC marca presença com uma oficina co-organizada junto ao Sustentarea, grupo de estudos da Faculdade de Saúde Pública da USP. O evento reúne pesquisadores, nutricionistas, gestores públicos, educadores e representantes de movimentos sociais em torno de um tema urgente: como transformar a alimentação escolar em eixo real de mudança nos territórios. A oficina Do território ao Observatório: escuta ativa e construção coletiva de um monitoramento participativo da Educação Alimentar e Nutricional apresenta o Observatório em EAN — iniciativa que reúne o Sustentarea e o ICC com o objetivo de mapear, analisar e fortalecer as práticas de educação alimentar nas escolas brasileiras, com uma perspectiva sistêmica, decolonial e participativa. A proposta busca apresentar o Observatório, e construí-lo coletivamente, já que os participantes serão convidados a contribuir com críticas e sugestões que vão alimentar o desenvolvimento da iniciativa no futuro. A dinâmica da oficina inclui jogos e materiais educativos sobre sistemas alimentares, seguida de trabalho em grupos e socialização em plenária. A escuta ativa não é um detalhe metodológico: é o centro da proposta. A oficina acontece no âmbito do Encontro, com três horas de duração, conduzida por Lucia Guerra (ICC), Bianca Iuliano e Flavia Schwartzman (Sustentarea). Oficina: Do território ao Observatório: escuta ativa e construção coletiva de um monitoramento participativo da Educação Alimentar e NutricionalData: 22 ou 23 de setembro de 2026Local: UniRio, Rio de JaneiroInscrições: pelo III Encontro Internacional de Alimentação Escolar, Inovação e Sustentabilidade

Educação alimentar nas Américas: ICC co-organiza seminário internacional em setembro

Em 22 de setembro, o ICC co-organiza o Seminário Internacional Construir y Cultivar la Cooperación para una Educación Alimentaria Nutricional más Efectiva en las Américas, ao lado da Colansa, da Universidade Autônoma do Estado de Hidalgo (México) e do Movimento de Alimentação Saudável do Panamá. O evento é um desdobramento do webinário realizado em maio de 2026, que reuniu representantes das mesmas organizações, iniciando um debate sobre os desafios comuns da educação alimentar na região, como a expansão dos ultraprocessados, a ausência da EAN nos currículos escolares e a necessidade de formar educadores capazes de atuar de forma permanente e transversal nessa área. A programação reúne pesquisadores, gestores públicos, nutricionistas e educadores de diferentes países, com apresentações sobre modelos e metodologias de intervenção em EAN. Como estudo de caso, o ICC apresenta uma experiência educacional desenvolvida no município de Chapada dos Guimarães, no cerrado brasileiro. A diretora-geral do ICC, Ariela Doctos, e a coordenadora de desenvolvimento institucional, Erika Fischer, estarão presencialmente no México, nessa agenda que pretende discutir a relevância da EAN para a agenda pública nacional e internacional. O evento retoma uma questão central que emergiu em maio: os desafios da alimentação saudável, que envolvem cultura, território, ancestraloidade, autonomia e direitos; exigem políticas públicas e ações educativas que caminhem juntas. É essa articulação que o ICC busca fortalecer, no Brasil e no continente, por meio dos programas Cozinhas e Infâncias e Cozinhas e Territórios. Participe! Seminário Internacional: Construir y cultivar la cooperación para una Educación Alimentaria Nutricional más efectiva en las AméricasData: 22 de setembro — 12h (Brasil) | 9h (México)Local: UAEH — Universidad Autónoma del Estado de Hidalgo, Pachuca, MéxicoTransmissão: ao vivo pelo Zoom da Rede Colansa — inscrições abertas

Saberes da Boca pra Boca: saiba como foi o seminário

No dia 30 de julho de 2026, a Sala Alfredo Bosi do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo recebeu o seminário Saberes da Boca pra Boca: Educação Alimentar sob a Perspectiva da História Oral. O evento marcou o lançamento público da pesquisa qualitativa “Interseccionalidade, Comida e Educação Alimentar e Nutricional: a História Oral de Professoras de Escolas Públicas do Município de São Paulo-SP“, desenvolvida pelo Instituto Comida e Cultura no âmbito do programa Cozinhas & Infâncias. Foram quatro horas de encontro — presencial e virtual, pelo YouTube — que reuniram pesquisadoras, professoras da rede pública, gestores, estudantes e pesquisadores de diferentes áreas em torno de uma pergunta que atravessa cinco anos de trabalho do ICC: o que a alimentação tem a nos ensinar sobre quem somos, de onde viemos e como podemos transformar o chão da escola? Um acúmulo de cinco anos de história A apresentação do evento foi conduzida por Ana Vasconcellos, jornalista e facilitadora do ICC, que situou o seminário como momento histórico do Instituto, depois de anos de saberes acumulados em ações formativas. “Esse encontro é bem especial para o Instituto Comida e Cultura. Ele é fruto de um acúmulo de saberes que construímos há cinco anos”, disse ela ao abrir o evento, agradecendo às professoras que cederam suas histórias de vida para que a pesquisa existisse, às pesquisadoras que a construíram com atenção, afeto e escuta, e às pessoas que aceitaram o convite para aprofundar o diálogo. A abertura institucional contou com palavras de Ana Estela Haddad, professora titular da Faculdade de Odontologia da USP. Sua presença marcou a parceria entre o ICC e o IEA-USP — uma parceria representada, ao longo desses anos, também pela interlocução da professora Patrícia Jaime, vice-diretora da Faculdade de Saúde Pública da USP e conselheira do ICC, que encerrou o seminário com as palavras finais. Sobre pesquisa A aresentação da pesquisa foi conduzida pelas três co-produtoras do estudo. Ariela Doctors, co-fundadora e adiretora geral do ICC, apresentou a justificativa, os objetivos e a relevância do trabalho. Lucia Guerra, pesquisadora-colaboradora do ICC, conduziu o público pelo percurso teórico e metodológico. Por fim, daniella brochado, co-fundadora e diretora pedagógica do ICC, trouxe os principais resultados e o que eles revelam sobre a Educação Alimentar e Nutricional nas escolas. O estudo ouviu cinco professoras de EMEIs e CEMEIs da rede pública municipal que participaram da formação do Programa Cozinhas & Infâncias em 2023. Os resultados mostraram que a formação no Programa Cozinhas & Infâncias produziu transformações que extrapolaram o espaço escolar: mudou a forma como essas mulheres compreendem a alimentação, reconhecem sua própria ancestralidade e se percebem como agentes pedagógicas e políticas em seus territórios. As vozes do chão da escola A Mesa 1 – “Diálogos Interseccionais: EAN na Prática” foi o momento em que as vozes das professoras tomaram o centro. Mediada por Renata Marques, nutricionista clínica e presidente do Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional de Campinas, a mesa reuniu cinco educadoras de EMEIs da rede municipal: Bárbara de Souza Orlandin, Helia de Lourdes Machado, Zaira Kury Fabre, Maria Aparecida Vieira e Priscila Aparecida Santos de Oliveira. Cada uma trouxe, a partir de sua experiência cotidiana, o que significa transformar a alimentação em prática pedagógica dentro de uma escola pública. Foram relatos sobre experimentação sensorial com crianças pequenas, sobre projetos que conectam comida e cultura como um convite a experimentar muitas formas de educar, de maneira transversal e emancipadora. Por fim, o olhar crítico e propositivo A Mesa 2- “Desafios da Investigação e da Prática da EAN Sistêmica e Interseccional” fechou o evento com visões de especialistas. Mediada por Jaqueline Moraes Teixeira, professora do Departamento de Saúde e Sociedade da FSP-USP e pesquisadora do Cebrap, a mesa reuniu Lígia Amparo (UFBA, participando online), Mônica Passarinho (Educação Sistêmica) e Helen Santos (PPG/USP). O debate girou em torno de questões que a pesquisa levanta e que ultrapassam seus resultados: quem produz, valida e transmite o conhecimento no campo da saúde pública e da educação alimentar? Como a pesquisa qualitativa pode disputar espaço e legitimidade em um campo ainda dominado por abordagens quantitativas? Quais são as lacunas entre o que se sabe e o que se implementa nas políticas públicas de educação alimentar? Uma das falas do público sintetizou bem o espírito desse bloco: “Eu acredito que a nutrição e a educação têm que caminhar de mãos dadas. Essa articulação é muito importante. Assim como as crianças aprendem matemática, geografia, ciências, elas têm que aprender a comer. E como os professores estão em contato diário com as crianças, eles têm essa capacidade de transformar o ambiente, de levar o conhecimento da alimentação e do crescimento para as crianças — e impactar não só elas, mas também as famílias.”, revelou a nutricionista Renata Carneiro. Conheça a pesquisa 📄 Acesse o relatório completo da pesquisa

Como ser e não ser – como permanecer sendo, quando o mundo inteiro passa a habitar dentro do seu território? 

Por Ariela Doctors  Voltei da Terra Indígena do Xingu, TIX, diferente de como cheguei. Mais especificamente, do Polo Pavuru, onde tive a oportunidade de visitar as aldeias Arayo e Moygu, do povo Ikpeng, território onde realizaremos uma formação do programa Cozinhas & Infâncias, como parte do consórcio Terra Nutre*. Mas, antes de qualquer formação, fui eu quem aprendeu. Existe um Brasil que não conhecemos. Um Brasil que pouco apareceu na escola, raramente ocupou os livros didáticos e, durante séculos, foi deliberadamente apagado da narrativa oficial. Um Brasil que continua vivo graças à resistência dos povos originários, que seguem protegendo suas línguas, seus modos de viver, seus conhecimentos e seus territórios. Conhecer um pouco da história dos Ikpeng foi, ao mesmo tempo, doloroso e profundamente esperançoso. Doloroso porque nos obriga a reconhecer a violência do apagamento. Esperançoso porque revela a potência de um povo que insiste em existir. Fui recebida com generosidade, bom humor e hospitalidade. Caminhei até a roça junto com as mulheres da aldeia, colhi mandioca, acompanhei todo o seu beneficiamento até ela se transformar em polvilho e provei a perereba, um mingau delicado, levemente adocicado, preparado com a mandioca. Vi sistemas agroflorestais sendo cultivados. Participei de rodas de conversa com professores, coordenadores da escola, lideranças e mulheres, algumas falavam apenas Ikpeng, outras compreendiam um pouco do português, mas todas compartilhavam saberes que atravessam gerações. Também conheci um grupo de jovens Ikpeng que já concluiu o ensino médio na própria aldeia e hoje cursa universidades fora do território. Muitos desejam retornar. E retornam. Querem implementar projetos de monitoramento do território contra invasões, fortalecer a comunicação das causas indígenas, recuperar alimentos ancestrais, ampliar iniciativas de reflorestamento, produzir conhecimento a partir de suas próprias perguntas. Estão aprendendo a elaborar projetos, construir orçamentos, acessar editais e captar recursos para fortalecer aquilo que já existe: sua própria cultura. Foi impossível não admirar essa geração. E foi impossível não perceber o enorme paradoxo que ela vive. Para estudar, é preciso sair da aldeia. Para voltar e fortalecer a aldeia, é preciso conhecer o mundo dos brancos. Esses jovens transitam entre dois universos. Circulam por cidades, universidades e aeroportos. Conhecem outras comidas, outras roupas, outras tecnologias, outras formas de viver. Depois retornam às casas construídas com madeira e palha, ao chão de terra batida, às redes, aos banhos de rio, aos peixes recém-pescados, à mandioca cultivada pela comunidade. É uma imagem que não saiu da minha cabeça: um jovem caminhando pela aldeia com um tênis branco de última geração sobre a terra vermelha do Xingu. Como ser e não ser ao mesmo tempo? Como viver a interculturalidade quando o isolamento deixou de existir? Como incorporar novos conhecimentos sem permitir que eles apaguem aqueles construídos ao longo de milhares de anos? Hoje, praticamente todas as casas possuem acesso à internet por satélite. O mundo inteiro cabe dentro da aldeia. As crianças Ikpeng continuam nadando no rio, subindo em árvores, colhendo tamarindos diretamente do pé, arrancando mandioca da terra, brincando com folhas, gravetos, sementes, barro e água. Crescem profundamente conectadas à natureza e à vida coletiva. Mas agora também crescem diante de telas. E talvez esse seja um dos maiores desafios desta geração. Nós, nas cidades, já naturalizamos o fato de precisar limitar o tempo das crianças diante dos celulares. Vivemos diariamente a disputa entre as experiências do mundo real e o poder de atração dos algoritmos. Os Ikpeng não precisavam travar essa batalha. As infâncias eram educadas pelo território, pela floresta, pelos rios, pelos mais velhos, pelas histórias compartilhadas e pela vida comunitária. Agora, precisam aprender também a educar diante de uma avalanche de imagens, desejos e estímulos produzidos muito longe dali. A mesma internet que aproxima pode afastar. A mesma tecnologia que permite denunciar invasões do território também pode capturar o tempo das crianças. O mesmo mundo que oferece acesso ao conhecimento ocidental oferece, igualmente, acesso aos alimentos ultraprocessados que já começam a modificar seus padrões alimentares. Refrigerantes, biscoitos recheados, salgadinhos e macarrão instantâneo chegam junto com o sinal da internet, trazendo consigo um fenômeno conhecido em tantas partes do mundo: o aumento das doenças crônicas não transmissíveis relacionadas à alimentação e o enfraquecimento das práticas alimentares tradicionais. Mais uma vez, a pergunta retorna. Como ser e não ser? Mas talvez exista uma pista de resposta. Enquanto grande parte da sociedade ocidental parece caminhar para uma hiperindividualização, onde o “eu” frequentemente se sobrepõe ao “nós”, os Ikpeng continuam nos ensinando outra forma de existir. Uma existência fundada no pertencimento, na responsabilidade compartilhada, na coletividade. No reconhecimento de que uma criança não pertence apenas à sua família, mas à aldeia inteira; de que a floresta não é um recurso, mas parte da própria vida; de que o alimento não é apenas uma mercadoria, mas uma relação entre pessoas, território e ancestralidade. Talvez seja essa hipercoletividade que permitiu aos Ikpeng sobreviverem a séculos de violência, expulsões e tentativas de apagamento. A pergunta que permanece, e que não é apenas deles, mas de todos nós, é outra: Será que essa força coletiva continuará suficientemente viva para acolher as crianças que crescem, desde muito cedo, imersas na hiperconectividade do mundo digital?  Talvez esta não seja apenas uma pergunta sobre os Ikpeng. Talvez seja a pergunta do nosso tempo. Porque, no fundo, todos nós estamos tentando descobrir como permanecer humanos quando o mundo inteiro passou a caber na palma da nossa mão. *Sobre o Terra Nutre: O projeto é financiado pelo Fundo Amazônia/BNDES, no âmbito da iniciativa Amazônia na Escola, e executado pelo Instituto Centro de Vida (ICV) em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), o Centro de Tecnologia Alternativa (CTA), o Instituto Comida e Cultura (ICC), o Instituto Comida do Amanhã (CdA), o Instituto Conexões Sustentáveis (Conexsus) e a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso (Funadif). O Terra Nutre também conta com Acordos de Cooperação Técnica com a Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso (Seduc-MT) e com as prefeituras de Paranaíta, Nova Bandeirantes, Carlinda, Alta Floresta, Porto

Artigo assinado por pesquisadoras do ICC propõe uma pedagogia da alimentação para as infâncias

PALESTRA

A alimentação como experiência educativa, cultural e política está no centro de um novo artigo publicado por integrantes da equipe do Instituto Comida e Cultura (ICC). Intitulado “A pedagogia da colher e do colher: a alimentação como experiência formativa nas infâncias“, o trabalho é assinado por Ariela Doctors, Daniella Brochado e Lúcia Dias da Silva Guerra, que atuam diretamente na construção das metodologias e programas do Instituto. O artigo foi publicado na Revista APRENDER – Caderno de Filosofia e Psicologia da Educação, periódico científico ligado à Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) dedicado à divulgação de pesquisas sobre os processos educacionais e suas interfaces com a Filosofia, a Psicologia e outras áreas do conhecimento relacionadas à educação. A publicação reúne trabalhos que contribuem para a reflexão sobre práticas pedagógicas, formação e produção de conhecimento no campo educacional. Partindo de um dos grandes desafios do nosso tempo, com o crescente afastamento das crianças das práticas culinárias e da cultura alimentar, em um contexto marcado pelo avanço dos alimentos ultraprocessados e pelas transformações dos sistemas alimentares, as autoras propõem a ideia de “pedagogia da colher e do colher”. O jogo de palavras sintetiza a proposta central do artigo: colher da terra, dos saberes e das relações para, então, colher aprendizagens, vínculos e novas formas de compreender a alimentação. Nessa perspectiva, preparar, compartilhar e vivenciar os alimentos deixa de ser apenas um ato cotidiano e passa a constituir uma experiência formativa capaz de ampliar repertórios sensoriais, fortalecer a cultura alimentar e conectar crianças ao território e à coletividade. A reflexão dialoga com diferentes campos do conhecimento, como as ciências humanas, a Educação Alimentar e Nutricional (EAN) e as perspectivas decoloniais; e se apoia nas experiências desenvolvidas pelo programa Cozinhas & Infâncias, principal iniciativa formativa do ICC. Ao reunir evidências produzidas ao longo dessa trajetória, o artigo reafirma a alimentação como uma potente ferramenta pedagógica para a formação de crianças críticas, sensíveis e conectadas à cultura alimentar brasileira. A publicação representa mais um importante reconhecimento da produção técnica e científica do Instituto Comida e Cultura. Além de fortalecer o diálogo entre prática e pesquisa, evidencia a contribuição do ICC para a construção de novos referenciais em Educação Alimentar e Nutricional, ampliando a presença desse debate nos espaços acadêmicos e reafirmando a alimentação como um campo estratégico para a educação e para a formação das infâncias. Para ler o artigo na íntegra, acesse a publicação da Revista APRENDER – Caderno de Filosofia e Psicologia da Educação.

Entre milpas, saberes e territórios: caminhos rumo a uma nova Educação Alimentar

Em 27 de maio de 2026, representantes de organizações da sociedade civil, universidades, movimentos sociais, pesquisadores, educadores, profissionais da saúde e gestores públicos de diferentes países das Américas reuniram-se de forma virtual no Webinário Internacional Educação Alimentar e Nutricional nas Américas. Promovido pela Colansa – Comunidade de Práticas Latinoamérica e Caribe Nutrição e Saúde, pelo Instituto Comida e Cultura (Brasil), pela Universidade Autônoma do Estado de Hidalgo (México) e pelo Movimento de Alimentação Saudável (Panamá), o encontro teve como propósito fortalecer o diálogo continental sobre a Educação Alimentar e Nutricional (EAN) e sua incorporação nos sistemas educacionais e nas políticas públicas. Mais do que um espaço de apresentações institucionais, o webinário constituiu um exercício concreto de cooperação internacional. Inspirado na metáfora da Milpa, sistema ancestral de cultivo baseado na semeadura e na cooperação entre milho, feijão e abóbora, o encontro buscou demonstrar que a diversidade, a interdependência e a colaboração podem ser princípios orientadores para o fortalecimento da EAN em nossos territórios. A participação superou as expectativas. O evento reuniu representantes de diversos países da América Latina, incluindo Brasil, México, Argentina, Colômbia, Costa Rica, Peru, Venezuela e Uruguai, além de participantes vinculados a universidades, programas de alimentação escolar, instituições governamentais, movimentos sociais, organizações comunitárias e grupos de pesquisa. As avaliações registradas ao final do encontro revelaram ampla aprovação da iniciativa, com predomínio de respostas que classificaram o webinário como “Excelente” ou “Muito Bom”. Ainda mais significativo foi o interesse manifestado pelas e pelos participantes em integrar-se a futuras articulações, intercâmbios e ações colaborativas voltadas à Educação Alimentar e Nutricional nas Américas. DESAFIOS COMPARTILHADOS Embora os contextos territoriais sejam diversos, as respostas tiveram uma notável convergência em relação aos desafios enfrentados pelos diferentes países. Entre os temas mais recorrentes, destacaram-se: As contribuições das e dos participantes também suscitaram uma reflexão mais profunda sobre os próprios limites da expressão “Educação Alimentar e Nutricional”. Embora amplamente integrada às políticas públicas e aos marcos institucionais da região, essa denominação parece, em certa medida, insuficiente para abarcar a complexidade dos temas que emergiram ao longo do encontro. Quando educadores, pesquisadores, nutricionistas, movimentos sociais e gestores falam de alimentação, falam também de cultura, memória, identidade, território, biodiversidade, ancestralidade, justiça social, relações ecológicas, modos de vida, sistemas produtivos, afetos e pertencimento. Trata-se de um campo que transcende a dimensão biológica e funcional dos nutrientes e da saúde individual. Nesse sentido, o webinário abriu espaço para questionar se o termo “nutricional” ainda é capaz de expressar a amplitude da transformação que buscamos promover. Historicamente, a crítica ao nutricionismo já apontou os limites de abordagens que fragmentam os alimentos em componentes isolados, reduzindo a alimentação a uma questão técnica ou biomédica. As experiências compartilhadas pelas organizações e participantes das Américas indicam precisamente a necessidade de avançar rumo a perspectivas mais integrais, relacionais e territorializadas. Talvez este seja um dos desafios para os próximos anos: construir coletivamente novas linguagens capazes de nomear uma educação que não se ocupe apenas dos nutrientes, mas das múltiplas relações que sustentam a vida. Uma educação comprometida com a diversidade biocultural, a soberania alimentar, os saberes dos povos, a sustentabilidade e a imaginação de futuros mais justos. Mais do que encontrar de imediato uma nova denominação, trata-se de abrir uma conversa continental sobre quais palavras podem traduzir a grandeza do projeto educativo que estamos cultivando. Vale reconhecer que essa busca não parte do zero: já houve esforços para posicionar a Educação Alimentar e Nutricional (EAN) na América Latina e no Caribe como eixo articulador e transformador dos sistemas alimentares, bem como chamados para se contar com uma EAN mais articulada e efetiva. O reconhecimento desses antecedentes nos permite avançar sobre bases já construídas. Assim como a Milpa nos ensina que a vida floresce na convivência entre as diferenças, talvez também precisemos semear novos conceitos capazes de acolher a complexidade e a potência das transformações que desejamos construir nas Américas. UMA AGENDA CONTINENTAL EM CONSTRUÇÃO Ao serem convidados a refletir sobre quais agendas deveriam aproximar os países das Américas, os participantes apontaram um conjunto consistente de temas prioritários. Entre eles, destacam-se: Essas convergências sugerem a existência de um terreno fértil para a construção de uma agenda latino-americana de Educação Alimentar e Nutricional capaz de articular diferentes experiências sem apagar as especificidades locais. A MILPA COMO HORIZONTE Um dos aspectos mais marcantes do encontro foi a potência simbólica da Milpa como referência para pensar a cooperação entre países. Nas respostas dos participantes, a Milpa foi associada à valorização dos saberes ancestrais, à diversidade alimentar, à soberania alimentar, ao fortalecimento comunitário, à agroecologia e à construção coletiva de soluções. A metáfora permitiu deslocar o olhar da lógica da competição para a lógica da colaboração; do monocultivo para a diversidade; da dependência para a autonomia; da colonização dos sistemas alimentares para a valorização dos patrimônios alimentares dos povos das Américas. Assim como as espécies que compõem a Milpa crescem apoiando-se mutuamente, os participantes reconheceram que os desafios da Educação Alimentar e Nutricional exigem articulações entre educação, saúde, agricultura, cultura, meio ambiente e participação social. PERSPECTIVAS FUTURAS As respostas ao formulário também apontaram caminhos concretos para aprofundar a cooperação internacional iniciada neste webinário. Entre os temas sugeridos para futuros encontros, destacam-se: A diversidade dessas propostas revela não apenas o interesse dos participantes em seguir conectados, mas também a necessidade de consolidar espaços permanentes de intercâmbio e produção coletiva de conhecimento. CONTINUANDO A SEMEADURA O webinário Educação Alimentar e Nutricional nas Américas demonstrou que existem desafios compartilhados, mas também experiências inspiradoras distribuídas pelo continente. Mais do que identificar problemas comuns, o encontro permitiu reconhecer a existência de uma comunidade de prática comprometida com a construção de sistemas alimentares mais justos, saudáveis, sustentáveis e culturalmente significativos. Se a Milpa nos ensina que a vida floresce na diversidade e na cooperação, este encontro mostrou que também é possível cultivar uma rede continental de Educação Alimentar e Nutricional baseada no intercâmbio de saberes, no reconhecimento das diferenças e na construção coletiva de futuros desejáveis. Uma semente foi plantada. O desafio agora é seguir

Quando a cozinha nos tira da zona de conforto: reflexões sobre Educação Alimentar e Nutricional, direitos e trabalho

Por Ariela Doctors Ao longo do webinar “Educação Alimentar que Promove Direitos”, fruto da parceria entre o GT de Direito Humano à Alimentação Adequada e Saudável da Rede Penssan e o Instituto Comida e Cultura, fomos convidadas a percorrer diferentes experiências de Educação Alimentar e Nutricional (EAN) que reafirmam a potência da escola como espaço de formação, cuidado e garantia de direitos. As falas da Erika Fischer, cofundadora e coordenadora de desenvolvimento institucional do ICC, das professoras Priscila Aparecida Santos de Oliveira e Fabiana Lopes Laurito apresentaram experiências inspiradoras de construção coletiva, valorização dos alimentos in natura, fortalecimento dos vínculos entre crianças e natureza, participação das famílias, hortas escolares, compostagem e reconhecimento da alimentação como parte constitutiva do currículo e da formação humana. São experiências que nos ajudam a enxergar a EAN para além da transmissão de informações nutricionais, compreendendo-a como uma prática educativa capaz de promover autonomia, pertencimento, consciência crítica e aproximação com o Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) desde a primeira infância. Mas foi justamente quando começamos a nos encantar com a potência dessas iniciativas que a fala de Kerley Arruda, cozinheira escolar da rede municipal de Niterói, nos deslocou para um  lugar de desconforto. Sua fala criou uma espécie de ruptura importante e necessária. Se até então olhávamos para as potencialidades da Educação Alimentar e Nutricional, Kerley nos convocou a olhar para o chão das cozinhas. Ela nos lembrou que não existe alimentação saudável sem condições dignas de trabalho para quem a produz. Não existe cardápio exemplar que se sustente sobre a sobrecarga, o adoecimento e a invisibilidade das trabalhadoras responsáveis por transformar diretrizes, planejamentos e políticas públicas em refeições concretas servidas diariamente a milhares de estudantes. Ao compartilhar a realidade das cozinhas escolares, Kerley expôs as contradições que muitas vezes permanecem ausentes dos debates sobre alimentação escolar. Falou de equipes reduzidas, infraestrutura precária, calor excessivo, falta de equipamentos básicos, adoecimento físico e emocional, ausência de reconhecimento profissional e inexistência de regulamentação nacional da profissão de cozinheira escolar. Falou de mulheres que adoecem, infartam, são afastadas do trabalho e, ainda assim, permanecem invisíveis para grande parte das políticas que defendem uma alimentação de qualidade. Sua fala trouxe uma provocação fundamental: quando defendemos que as escolas descasquem mais e desempacotem menos, estamos também dispostos a discutir quem descasca, quem corta, quem prepara e em quais condições esse trabalho é realizado? Quando celebramos a ampliação dos alimentos in natura e a redução dos ultraprocessados, estamos considerando os impactos dessa escolha sobre as trabalhadoras que sustentam cotidianamente essa política pública? A potência da intervenção de Kerley esteve justamente em nos lembrar que a luta por alimentação adequada não pode ser dissociada da luta por trabalho digno. Que a defesa do DHAA passa necessariamente pela defesa dos direitos das cozinheiras escolares. Que não há justiça alimentar sem justiça no trabalho. Essa reflexão dialoga diretamente com as discussões apresentadas por Bela Gil, também cofundadora do Instituto Comida e Cultura, em seu livro Quem Vai Fazer Essa Comida? No texto, Bela amplia o debate sobre alimentação saudável ao evidenciar que cozinhar é um ato profundamente político e coletivo, atravessado por relações de cuidado, gênero, trabalho e justiça social. Ao perguntar “quem vai fazer essa comida?” Bela desloca o foco do alimento em si para as pessoas que tornam possível sua existência e nos convida a reconhecer e valorizar o trabalho, frequentemente invisibilizado, de quem cozinha diariamente nas casas, nas escolas e em outros equipamentos públicos.  Talvez uma das principais contribuições deste encontro tenha sido justamente a possibilidade de colocar essas perspectivas em diálogo. De um lado, as experiências pedagógicas que demonstram como a EAN pode ser uma poderosa porta de entrada para a formação de sujeitas/os conscientes de seus direitos, de sua relação com a natureza e dos sistemas alimentares que os cercam. De outro, a voz das trabalhadoras que nos lembram que nenhum projeto emancipatório se sustenta se aqueles que o tornam possível permanecerem submetidos à precarização. Se acreditamos que a Educação Alimentar e Nutricional pode contribuir para formar cidadãos capazes de compreender e defender o Direito Humano à Alimentação Adequada, então precisamos reconhecer, com a mesma urgência, que essa formação começa também pelo reconhecimento dos direitos de quem alimenta. As cozinheiras escolares não são apenas executoras de cardápios. São educadoras, cuidadoras, trabalhadoras da alimentação e agentes fundamentais na garantia de direitos dentro da escola pública. A reflexão que permanece após este encontro é que não basta defender a alimentação saudável, é preciso defender as condições que tornam essa alimentação possível. Não basta falar sobre o direito de comer bem, é preciso falar sobre os direitos de quem prepara essa comida todos os dias. Não basta apenas sonhar com “escolas comestíveis”, é necessário construir cozinhas mais justas. Se a EAN pretende ser uma ferramenta de transformação social, ela precisa incorporar de forma definitiva a luta pela valorização, pelo reconhecimento e pela garantia de direitos das cozinheiras escolares. Afinal, cuidar de quem alimenta é também uma condição indispensável para garantir o direito à alimentação de quem aprende. Para assistir ao Webinar completo, visite o canal da Rede Penssan no Youtube!