Como ser e não ser – como permanecer sendo, quando o mundo inteiro passa a habitar dentro do seu território?

Por Ariela Doctors Voltei da Terra Indígena do Xingu, TIX, diferente de como cheguei. Mais especificamente, do Polo Pavuru, onde tive a oportunidade de visitar as aldeias Arayo e Moygu, do povo Ikpeng, território onde realizaremos uma formação do programa Cozinhas & Infâncias, como parte do consórcio Terra Nutre*. Mas, antes de qualquer formação, fui eu quem aprendeu. Existe um Brasil que não conhecemos. Um Brasil que pouco apareceu na escola, raramente ocupou os livros didáticos e, durante séculos, foi deliberadamente apagado da narrativa oficial. Um Brasil que continua vivo graças à resistência dos povos originários, que seguem protegendo suas línguas, seus modos de viver, seus conhecimentos e seus territórios. Conhecer um pouco da história dos Ikpeng foi, ao mesmo tempo, doloroso e profundamente esperançoso. Doloroso porque nos obriga a reconhecer a violência do apagamento. Esperançoso porque revela a potência de um povo que insiste em existir. Fui recebida com generosidade, bom humor e hospitalidade. Caminhei até a roça junto com as mulheres da aldeia, colhi mandioca, acompanhei todo o seu beneficiamento até ela se transformar em polvilho e provei a perereba, um mingau delicado, levemente adocicado, preparado com a mandioca. Vi sistemas agroflorestais sendo cultivados. Participei de rodas de conversa com professores, coordenadores da escola, lideranças e mulheres, algumas falavam apenas Ikpeng, outras compreendiam um pouco do português, mas todas compartilhavam saberes que atravessam gerações. Também conheci um grupo de jovens Ikpeng que já concluiu o ensino médio na própria aldeia e hoje cursa universidades fora do território. Muitos desejam retornar. E retornam. Querem implementar projetos de monitoramento do território contra invasões, fortalecer a comunicação das causas indígenas, recuperar alimentos ancestrais, ampliar iniciativas de reflorestamento, produzir conhecimento a partir de suas próprias perguntas. Estão aprendendo a elaborar projetos, construir orçamentos, acessar editais e captar recursos para fortalecer aquilo que já existe: sua própria cultura. Foi impossível não admirar essa geração. E foi impossível não perceber o enorme paradoxo que ela vive. Para estudar, é preciso sair da aldeia. Para voltar e fortalecer a aldeia, é preciso conhecer o mundo dos brancos. Esses jovens transitam entre dois universos. Circulam por cidades, universidades e aeroportos. Conhecem outras comidas, outras roupas, outras tecnologias, outras formas de viver. Depois retornam às casas construídas com madeira e palha, ao chão de terra batida, às redes, aos banhos de rio, aos peixes recém-pescados, à mandioca cultivada pela comunidade. É uma imagem que não saiu da minha cabeça: um jovem caminhando pela aldeia com um tênis branco de última geração sobre a terra vermelha do Xingu. Como ser e não ser ao mesmo tempo? Como viver a interculturalidade quando o isolamento deixou de existir? Como incorporar novos conhecimentos sem permitir que eles apaguem aqueles construídos ao longo de milhares de anos? Hoje, praticamente todas as casas possuem acesso à internet por satélite. O mundo inteiro cabe dentro da aldeia. As crianças Ikpeng continuam nadando no rio, subindo em árvores, colhendo tamarindos diretamente do pé, arrancando mandioca da terra, brincando com folhas, gravetos, sementes, barro e água. Crescem profundamente conectadas à natureza e à vida coletiva. Mas agora também crescem diante de telas. E talvez esse seja um dos maiores desafios desta geração. Nós, nas cidades, já naturalizamos o fato de precisar limitar o tempo das crianças diante dos celulares. Vivemos diariamente a disputa entre as experiências do mundo real e o poder de atração dos algoritmos. Os Ikpeng não precisavam travar essa batalha. As infâncias eram educadas pelo território, pela floresta, pelos rios, pelos mais velhos, pelas histórias compartilhadas e pela vida comunitária. Agora, precisam aprender também a educar diante de uma avalanche de imagens, desejos e estímulos produzidos muito longe dali. A mesma internet que aproxima pode afastar. A mesma tecnologia que permite denunciar invasões do território também pode capturar o tempo das crianças. O mesmo mundo que oferece acesso ao conhecimento ocidental oferece, igualmente, acesso aos alimentos ultraprocessados que já começam a modificar seus padrões alimentares. Refrigerantes, biscoitos recheados, salgadinhos e macarrão instantâneo chegam junto com o sinal da internet, trazendo consigo um fenômeno conhecido em tantas partes do mundo: o aumento das doenças crônicas não transmissíveis relacionadas à alimentação e o enfraquecimento das práticas alimentares tradicionais. Mais uma vez, a pergunta retorna. Como ser e não ser? Mas talvez exista uma pista de resposta. Enquanto grande parte da sociedade ocidental parece caminhar para uma hiperindividualização, onde o “eu” frequentemente se sobrepõe ao “nós”, os Ikpeng continuam nos ensinando outra forma de existir. Uma existência fundada no pertencimento, na responsabilidade compartilhada, na coletividade. No reconhecimento de que uma criança não pertence apenas à sua família, mas à aldeia inteira; de que a floresta não é um recurso, mas parte da própria vida; de que o alimento não é apenas uma mercadoria, mas uma relação entre pessoas, território e ancestralidade. Talvez seja essa hipercoletividade que permitiu aos Ikpeng sobreviverem a séculos de violência, expulsões e tentativas de apagamento. A pergunta que permanece, e que não é apenas deles, mas de todos nós, é outra: Será que essa força coletiva continuará suficientemente viva para acolher as crianças que crescem, desde muito cedo, imersas na hiperconectividade do mundo digital? Talvez esta não seja apenas uma pergunta sobre os Ikpeng. Talvez seja a pergunta do nosso tempo. Porque, no fundo, todos nós estamos tentando descobrir como permanecer humanos quando o mundo inteiro passou a caber na palma da nossa mão. *Sobre o Terra Nutre: O projeto é financiado pelo Fundo Amazônia/BNDES, no âmbito da iniciativa Amazônia na Escola, e executado pelo Instituto Centro de Vida (ICV) em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), o Centro de Tecnologia Alternativa (CTA), o Instituto Comida e Cultura (ICC), o Instituto Comida do Amanhã (CdA), o Instituto Conexões Sustentáveis (Conexsus) e a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso (Funadif). O Terra Nutre também conta com Acordos de Cooperação Técnica com a Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso (Seduc-MT) e com as prefeituras de Paranaíta, Nova Bandeirantes, Carlinda, Alta Floresta, Porto
Artigo assinado por pesquisadoras do ICC propõe uma pedagogia da alimentação para as infâncias

A alimentação como experiência educativa, cultural e política está no centro de um novo artigo publicado por integrantes da equipe do Instituto Comida e Cultura (ICC). Intitulado “A pedagogia da colher e do colher: a alimentação como experiência formativa nas infâncias“, o trabalho é assinado por Ariela Doctors, Daniella Brochado e Lúcia Dias da Silva Guerra, que atuam diretamente na construção das metodologias e programas do Instituto. O artigo foi publicado na Revista APRENDER – Caderno de Filosofia e Psicologia da Educação, periódico científico ligado à Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) dedicado à divulgação de pesquisas sobre os processos educacionais e suas interfaces com a Filosofia, a Psicologia e outras áreas do conhecimento relacionadas à educação. A publicação reúne trabalhos que contribuem para a reflexão sobre práticas pedagógicas, formação e produção de conhecimento no campo educacional. Partindo de um dos grandes desafios do nosso tempo, com o crescente afastamento das crianças das práticas culinárias e da cultura alimentar, em um contexto marcado pelo avanço dos alimentos ultraprocessados e pelas transformações dos sistemas alimentares, as autoras propõem a ideia de “pedagogia da colher e do colher”. O jogo de palavras sintetiza a proposta central do artigo: colher da terra, dos saberes e das relações para, então, colher aprendizagens, vínculos e novas formas de compreender a alimentação. Nessa perspectiva, preparar, compartilhar e vivenciar os alimentos deixa de ser apenas um ato cotidiano e passa a constituir uma experiência formativa capaz de ampliar repertórios sensoriais, fortalecer a cultura alimentar e conectar crianças ao território e à coletividade. A reflexão dialoga com diferentes campos do conhecimento, como as ciências humanas, a Educação Alimentar e Nutricional (EAN) e as perspectivas decoloniais; e se apoia nas experiências desenvolvidas pelo programa Cozinhas & Infâncias, principal iniciativa formativa do ICC. Ao reunir evidências produzidas ao longo dessa trajetória, o artigo reafirma a alimentação como uma potente ferramenta pedagógica para a formação de crianças críticas, sensíveis e conectadas à cultura alimentar brasileira. A publicação representa mais um importante reconhecimento da produção técnica e científica do Instituto Comida e Cultura. Além de fortalecer o diálogo entre prática e pesquisa, evidencia a contribuição do ICC para a construção de novos referenciais em Educação Alimentar e Nutricional, ampliando a presença desse debate nos espaços acadêmicos e reafirmando a alimentação como um campo estratégico para a educação e para a formação das infâncias. Para ler o artigo na íntegra, acesse a publicação da Revista APRENDER – Caderno de Filosofia e Psicologia da Educação.
Entre milpas, saberes e territórios: caminhos rumo a uma nova Educação Alimentar

Em 27 de maio de 2026, representantes de organizações da sociedade civil, universidades, movimentos sociais, pesquisadores, educadores, profissionais da saúde e gestores públicos de diferentes países das Américas reuniram-se de forma virtual no Webinário Internacional Educação Alimentar e Nutricional nas Américas. Promovido pela Colansa – Comunidade de Práticas Latinoamérica e Caribe Nutrição e Saúde, pelo Instituto Comida e Cultura (Brasil), pela Universidade Autônoma do Estado de Hidalgo (México) e pelo Movimento de Alimentação Saudável (Panamá), o encontro teve como propósito fortalecer o diálogo continental sobre a Educação Alimentar e Nutricional (EAN) e sua incorporação nos sistemas educacionais e nas políticas públicas. Mais do que um espaço de apresentações institucionais, o webinário constituiu um exercício concreto de cooperação internacional. Inspirado na metáfora da Milpa, sistema ancestral de cultivo baseado na semeadura e na cooperação entre milho, feijão e abóbora, o encontro buscou demonstrar que a diversidade, a interdependência e a colaboração podem ser princípios orientadores para o fortalecimento da EAN em nossos territórios. A participação superou as expectativas. O evento reuniu representantes de diversos países da América Latina, incluindo Brasil, México, Argentina, Colômbia, Costa Rica, Peru, Venezuela e Uruguai, além de participantes vinculados a universidades, programas de alimentação escolar, instituições governamentais, movimentos sociais, organizações comunitárias e grupos de pesquisa. As avaliações registradas ao final do encontro revelaram ampla aprovação da iniciativa, com predomínio de respostas que classificaram o webinário como “Excelente” ou “Muito Bom”. Ainda mais significativo foi o interesse manifestado pelas e pelos participantes em integrar-se a futuras articulações, intercâmbios e ações colaborativas voltadas à Educação Alimentar e Nutricional nas Américas. DESAFIOS COMPARTILHADOS Embora os contextos territoriais sejam diversos, as respostas tiveram uma notável convergência em relação aos desafios enfrentados pelos diferentes países. Entre os temas mais recorrentes, destacaram-se: As contribuições das e dos participantes também suscitaram uma reflexão mais profunda sobre os próprios limites da expressão “Educação Alimentar e Nutricional”. Embora amplamente integrada às políticas públicas e aos marcos institucionais da região, essa denominação parece, em certa medida, insuficiente para abarcar a complexidade dos temas que emergiram ao longo do encontro. Quando educadores, pesquisadores, nutricionistas, movimentos sociais e gestores falam de alimentação, falam também de cultura, memória, identidade, território, biodiversidade, ancestralidade, justiça social, relações ecológicas, modos de vida, sistemas produtivos, afetos e pertencimento. Trata-se de um campo que transcende a dimensão biológica e funcional dos nutrientes e da saúde individual. Nesse sentido, o webinário abriu espaço para questionar se o termo “nutricional” ainda é capaz de expressar a amplitude da transformação que buscamos promover. Historicamente, a crítica ao nutricionismo já apontou os limites de abordagens que fragmentam os alimentos em componentes isolados, reduzindo a alimentação a uma questão técnica ou biomédica. As experiências compartilhadas pelas organizações e participantes das Américas indicam precisamente a necessidade de avançar rumo a perspectivas mais integrais, relacionais e territorializadas. Talvez este seja um dos desafios para os próximos anos: construir coletivamente novas linguagens capazes de nomear uma educação que não se ocupe apenas dos nutrientes, mas das múltiplas relações que sustentam a vida. Uma educação comprometida com a diversidade biocultural, a soberania alimentar, os saberes dos povos, a sustentabilidade e a imaginação de futuros mais justos. Mais do que encontrar de imediato uma nova denominação, trata-se de abrir uma conversa continental sobre quais palavras podem traduzir a grandeza do projeto educativo que estamos cultivando. Vale reconhecer que essa busca não parte do zero: já houve esforços para posicionar a Educação Alimentar e Nutricional (EAN) na América Latina e no Caribe como eixo articulador e transformador dos sistemas alimentares, bem como chamados para se contar com uma EAN mais articulada e efetiva. O reconhecimento desses antecedentes nos permite avançar sobre bases já construídas. Assim como a Milpa nos ensina que a vida floresce na convivência entre as diferenças, talvez também precisemos semear novos conceitos capazes de acolher a complexidade e a potência das transformações que desejamos construir nas Américas. UMA AGENDA CONTINENTAL EM CONSTRUÇÃO Ao serem convidados a refletir sobre quais agendas deveriam aproximar os países das Américas, os participantes apontaram um conjunto consistente de temas prioritários. Entre eles, destacam-se: Essas convergências sugerem a existência de um terreno fértil para a construção de uma agenda latino-americana de Educação Alimentar e Nutricional capaz de articular diferentes experiências sem apagar as especificidades locais. A MILPA COMO HORIZONTE Um dos aspectos mais marcantes do encontro foi a potência simbólica da Milpa como referência para pensar a cooperação entre países. Nas respostas dos participantes, a Milpa foi associada à valorização dos saberes ancestrais, à diversidade alimentar, à soberania alimentar, ao fortalecimento comunitário, à agroecologia e à construção coletiva de soluções. A metáfora permitiu deslocar o olhar da lógica da competição para a lógica da colaboração; do monocultivo para a diversidade; da dependência para a autonomia; da colonização dos sistemas alimentares para a valorização dos patrimônios alimentares dos povos das Américas. Assim como as espécies que compõem a Milpa crescem apoiando-se mutuamente, os participantes reconheceram que os desafios da Educação Alimentar e Nutricional exigem articulações entre educação, saúde, agricultura, cultura, meio ambiente e participação social. PERSPECTIVAS FUTURAS As respostas ao formulário também apontaram caminhos concretos para aprofundar a cooperação internacional iniciada neste webinário. Entre os temas sugeridos para futuros encontros, destacam-se: A diversidade dessas propostas revela não apenas o interesse dos participantes em seguir conectados, mas também a necessidade de consolidar espaços permanentes de intercâmbio e produção coletiva de conhecimento. CONTINUANDO A SEMEADURA O webinário Educação Alimentar e Nutricional nas Américas demonstrou que existem desafios compartilhados, mas também experiências inspiradoras distribuídas pelo continente. Mais do que identificar problemas comuns, o encontro permitiu reconhecer a existência de uma comunidade de prática comprometida com a construção de sistemas alimentares mais justos, saudáveis, sustentáveis e culturalmente significativos. Se a Milpa nos ensina que a vida floresce na diversidade e na cooperação, este encontro mostrou que também é possível cultivar uma rede continental de Educação Alimentar e Nutricional baseada no intercâmbio de saberes, no reconhecimento das diferenças e na construção coletiva de futuros desejáveis. Uma semente foi plantada. O desafio agora é seguir
Seminário do Instituto Comida e Cultura apresenta resultados de pesquisa inédita sobre EAN: história oral, alimentação e interseccionalidade

Encontro realizado no IEA-USP une ciência, memória e ativismo a partir das vozes de professoras da rede pública de São Paulo-SP, em prol da alimentação adequada e saudável
Quando a cozinha nos tira da zona de conforto: reflexões sobre Educação Alimentar e Nutricional, direitos e trabalho

Por Ariela Doctors Ao longo do webinar “Educação Alimentar que Promove Direitos”, fruto da parceria entre o GT de Direito Humano à Alimentação Adequada e Saudável da Rede Penssan e o Instituto Comida e Cultura, fomos convidadas a percorrer diferentes experiências de Educação Alimentar e Nutricional (EAN) que reafirmam a potência da escola como espaço de formação, cuidado e garantia de direitos. As falas da Erika Fischer, cofundadora e coordenadora de desenvolvimento institucional do ICC, das professoras Priscila Aparecida Santos de Oliveira e Fabiana Lopes Laurito apresentaram experiências inspiradoras de construção coletiva, valorização dos alimentos in natura, fortalecimento dos vínculos entre crianças e natureza, participação das famílias, hortas escolares, compostagem e reconhecimento da alimentação como parte constitutiva do currículo e da formação humana. São experiências que nos ajudam a enxergar a EAN para além da transmissão de informações nutricionais, compreendendo-a como uma prática educativa capaz de promover autonomia, pertencimento, consciência crítica e aproximação com o Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) desde a primeira infância. Mas foi justamente quando começamos a nos encantar com a potência dessas iniciativas que a fala de Kerley Arruda, cozinheira escolar da rede municipal de Niterói, nos deslocou para um lugar de desconforto. Sua fala criou uma espécie de ruptura importante e necessária. Se até então olhávamos para as potencialidades da Educação Alimentar e Nutricional, Kerley nos convocou a olhar para o chão das cozinhas. Ela nos lembrou que não existe alimentação saudável sem condições dignas de trabalho para quem a produz. Não existe cardápio exemplar que se sustente sobre a sobrecarga, o adoecimento e a invisibilidade das trabalhadoras responsáveis por transformar diretrizes, planejamentos e políticas públicas em refeições concretas servidas diariamente a milhares de estudantes. Ao compartilhar a realidade das cozinhas escolares, Kerley expôs as contradições que muitas vezes permanecem ausentes dos debates sobre alimentação escolar. Falou de equipes reduzidas, infraestrutura precária, calor excessivo, falta de equipamentos básicos, adoecimento físico e emocional, ausência de reconhecimento profissional e inexistência de regulamentação nacional da profissão de cozinheira escolar. Falou de mulheres que adoecem, infartam, são afastadas do trabalho e, ainda assim, permanecem invisíveis para grande parte das políticas que defendem uma alimentação de qualidade. Sua fala trouxe uma provocação fundamental: quando defendemos que as escolas descasquem mais e desempacotem menos, estamos também dispostos a discutir quem descasca, quem corta, quem prepara e em quais condições esse trabalho é realizado? Quando celebramos a ampliação dos alimentos in natura e a redução dos ultraprocessados, estamos considerando os impactos dessa escolha sobre as trabalhadoras que sustentam cotidianamente essa política pública? A potência da intervenção de Kerley esteve justamente em nos lembrar que a luta por alimentação adequada não pode ser dissociada da luta por trabalho digno. Que a defesa do DHAA passa necessariamente pela defesa dos direitos das cozinheiras escolares. Que não há justiça alimentar sem justiça no trabalho. Essa reflexão dialoga diretamente com as discussões apresentadas por Bela Gil, também cofundadora do Instituto Comida e Cultura, em seu livro Quem Vai Fazer Essa Comida? No texto, Bela amplia o debate sobre alimentação saudável ao evidenciar que cozinhar é um ato profundamente político e coletivo, atravessado por relações de cuidado, gênero, trabalho e justiça social. Ao perguntar “quem vai fazer essa comida?” Bela desloca o foco do alimento em si para as pessoas que tornam possível sua existência e nos convida a reconhecer e valorizar o trabalho, frequentemente invisibilizado, de quem cozinha diariamente nas casas, nas escolas e em outros equipamentos públicos. Talvez uma das principais contribuições deste encontro tenha sido justamente a possibilidade de colocar essas perspectivas em diálogo. De um lado, as experiências pedagógicas que demonstram como a EAN pode ser uma poderosa porta de entrada para a formação de sujeitas/os conscientes de seus direitos, de sua relação com a natureza e dos sistemas alimentares que os cercam. De outro, a voz das trabalhadoras que nos lembram que nenhum projeto emancipatório se sustenta se aqueles que o tornam possível permanecerem submetidos à precarização. Se acreditamos que a Educação Alimentar e Nutricional pode contribuir para formar cidadãos capazes de compreender e defender o Direito Humano à Alimentação Adequada, então precisamos reconhecer, com a mesma urgência, que essa formação começa também pelo reconhecimento dos direitos de quem alimenta. As cozinheiras escolares não são apenas executoras de cardápios. São educadoras, cuidadoras, trabalhadoras da alimentação e agentes fundamentais na garantia de direitos dentro da escola pública. A reflexão que permanece após este encontro é que não basta defender a alimentação saudável, é preciso defender as condições que tornam essa alimentação possível. Não basta falar sobre o direito de comer bem, é preciso falar sobre os direitos de quem prepara essa comida todos os dias. Não basta apenas sonhar com “escolas comestíveis”, é necessário construir cozinhas mais justas. Se a EAN pretende ser uma ferramenta de transformação social, ela precisa incorporar de forma definitiva a luta pela valorização, pelo reconhecimento e pela garantia de direitos das cozinheiras escolares. Afinal, cuidar de quem alimenta é também uma condição indispensável para garantir o direito à alimentação de quem aprende. Para assistir ao Webinar completo, visite o canal da Rede Penssan no Youtube!
Quem forma quem em tempos complexos de alimentos e inteligênciasartificiais?

Por Ariela Doctors Falar sobre educação é, em alguma medida, falar sobre o que escolhemos preservar da experiência humana e o que decidimos legar às próximas gerações. Educar nunca foi apenas transmitir informações, trata-se de compartilhar modos de compreender o mundo, de habitar territórios, de construir relações e de produzir sentidos. Essa reflexão ganha profundidade quando revisitamos o documentário Schooling the World: The White Man’s Last Burden – Escolarizando o Mundo: O Último Fardo do Homem Branco (2011), dirigido por Carol Black. O filme apresenta uma crítica contundente à expansão global de um modelo escolar ocidental que frequentemente se apresenta como universal, mas que, quando chega a diferentes comunidades, desvaloriza saberes locais, rompe vínculos culturais e enfraquece formas tradicionais de aprendizagem. A educação moderna, construída sob a promessa do progresso, nem sempre reconhece a pluralidade de conhecimentos produzidos pelas diferentes sociedades humanas. Essa crítica dialoga com as reflexões de Antônio Bispo dos Santos em A Terra Dá, a Terra Quer (2023), que defende a valorização dos saberes produzidos nos territórios e modos de vida tradicionais, questionando a colonialidade presente nas formas hegemônicas de conhecimento. Ao enfatizar a importância da confluência entre diferentes formas de existência e aprendizagem, Nego Bispo contribui para pensar uma educação capaz de reconhecer e fortalecer a diversidade epistemológica e cultural dos povos. Paradoxalmente, foi justamente a capacidade de acumular e transmitir conhecimento ao longo das gerações que permitiu à humanidade chegar até aqui. A neurocientista Suzana Herculano-Houzel, em A Vantagem Humana (2017), oferece uma perspectiva fascinante sobre esse processo ao discutir a importância do domínio do fogo e do cozimento dos alimentos na evolução humana. Ao cozinhar, nossos ancestrais passaram a obter mais energia dos alimentos com menor esforço digestivo. O tempo e a energia antes destinados à sobrevivência imediata puderam ser investidos em outras atividades: observação, experimentação, criação de ferramentas, linguagem, cooperação social e, sobretudo, aprendizagem. O conhecimento humano tornou-se cumulativo. Cada geração passou a poder começar de onde a anterior havia parado. Em conversa no podcast, Papo Astral com o físico Marcelo Gleiser, Suzana destaca justamente esse aspecto singular da educação: ela permite que não precisemos reinventar continuamente a roda. A escola, nesse sentido, representa uma das mais importantes tecnologias criadas pela humanidade. Sua função não é apenas transmitir conteúdos, mas possibilitar que o patrimônio intelectual, científico e cultural acumulado ao longo de milhares de anos permaneça vivo e acessível. Entretanto, esse processo de acumulação produziu outro fenômeno. À medida que o conhecimento se expandiu, tornou-se impossível para um único indivíduo dominar todos os campos do saber. A ciência avançou por meio da especialização. Dividimos o conhecimento em disciplinas, áreas, subáreas e especialidades cada vez mais específicas. Essa estratégia foi extremamente bem-sucedida para aprofundar nossa compreensão do mundo. Graças a ela, produzimos avanços extraordinários na medicina, na física, na biologia, na agricultura e em inúmeras outras áreas. Em certa medida, esse movimento guarda relação com o pensamento cartesiano, inspirado por René Descartes (2001), cujo método propunha decompor problemas complexos em partes menores para torná-los mais compreensíveis. Embora esse princípio metodológico tenha contribuído para o que chamamos de ciência moderna, ele também favoreceu uma crescente fragmentação dos saberes. Mas o sucesso da especialização trouxe consigo outro paradoxo. Quanto mais aprendemos a analisar as partes, mais difícil se tornou compreender o todo. Os grandes desafios contemporâneos como mudanças climáticas, desigualdades sociais, crises alimentares, saúde coletiva, sustentabilidade e desenvolvimento tecnológico, não respeitam fronteiras disciplinares. São problemas complexos, sistêmicos e interdependentes. Contudo, continuamos formando pessoas em estruturas educacionais frequentemente fragmentadas, que separam aquilo que, na vida real, está profundamente conectado. Como argumenta Edgar Morin em A Cabeça Bem-Feita (2000) e Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro (2000), a educação moderna alcançou enorme êxito na produção de conhecimentos especializados, mas ainda encontra dificuldades para religar saberes e formar uma compreensão capaz de lidar com a complexidade do mundo contemporâneo. O desafio não é abandonar as disciplinas, mas construir pontes entre elas. Nesse contexto emerge um novo elemento transformador: a inteligência artificial. Pela primeira vez na história, vivemos em um mundo no qual praticamente todo o conhecimento registrado pode ser acessado e compartilhado instantaneamente em escala global. As barreiras geográficas diminuem, a circulação da informação acelera e a produção de conhecimento se torna cada vez mais distribuída. Ao mesmo tempo, surge um novo risco. Se a escola moderna já foi criticada por promover uma homogeneização cultural, as tecnologias digitais e os sistemas de inteligência artificial podem ampliar ainda mais essa propensão. A disponibilidade global de conteúdos, referências e modelos pode favorecer processos de padronização do pensamento, dos currículos e das formas de produzir conhecimento. Talvez este seja um dos maiores desafios contemporâneos para educadores: como transmitir o extraordinário acúmulo de conhecimento construído pela humanidade sem transformar a educação em mera replicação? Como garantir o acesso ao patrimônio científico e cultural coletivo sem sufocar a diversidade de experiências, saberes e perspectivas? Como preservar espaços de dúvida, experimentação e criação em um contexto onde respostas parecem estar sempre disponíveis? A criatividade raramente nasce do preenchimento completo. Ela emerge das lacunas, dos encontros inesperados, das perguntas ainda não respondidas. Educar, portanto, talvez seja menos oferecer respostas definitivas e mais criar condições para que novas perguntas possam surgir. Paulo Freire (1996) nos lembrava que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para sua produção e construção. E isso exige ambientes colaborativos, onde diferentes formas de conhecimento possam dialogar e produzir sínteses inéditas. É nesse ponto que a alimentação se revela um campo particularmente fértil para pensar a educação contemporânea. A comida conecta natureza e cultura, ciência e tradição, indivíduo e comunidade, local e global. Ao estudar a alimentação, podemos compreender processos biológicos, sistemas agrícolas, dinâmicas econômicas, identidades culturais, transformações históricas e questões ambientais. A alimentação oferece uma oportunidade concreta para reintegrar aquilo que a fragmentação disciplinar muitas vezes separou. Mais do que um tema, a comida pode ser uma lente para a aprendizagem. Uma lente que permite articular conhecimentos diversos em torno de experiências significativas e situadas, aproximando-se daquilo que
Trabalhe no ICC! VAGA AFIRMATIVA | Desenvolvedora(r) de Materiais Didáticos

1. ObjetoContratação de pessoa jurídica para prestação de serviços de desenvolvimento de materiais didáticos para o Programa Cozinhas & Infâncias.Esta vaga é destinada exclusivamente a ações afirmativas para profissionais autodeclarados negros (pretos e pardos) ou indígenas, visando promover a equidade racial, pluralidade e representatividade de cosmovisões na produção de conhecimentos.A contratação será realizada pelo Instituto Comida e Cultura exclusivamente com pessoa jurídica formalmente constituída, apta a emitir documentação fiscal, com flexibilidade de horários e com capacidade operacional e financeira para execução do objeto contratado. Para se inscrever, prencha este formulário até 22 de junho de 2026. 2. Escopo da AtuaçãoA(O) profissional será responsável pela criação, sistematização e revisão de materiais didáticos (cadernos, histórias e jogos com seus respectivos manuais) do Programa Cozinhas & Infâncias. A atuação deve pautar-se em abordagens decoloniais, interculturais e sistêmicas, assegurando a acessibilidade e a interatividade dos conteúdos. Considerando o cronograma desafiador e a natureza imediata deste projeto, o trabalho será realizado em ambientes colaborativos de forma proativa. 3. Perfil Buscamos profissionais com sólida formação pedagógica para criar materiais didáticos sobre Educação Alimentar. O perfil ideal combina competência técnica, compromisso com as pautas do Programa Cozinhas &Infâncias e habilidade de transposição didática lúdica. Devido aos prazos do projeto, é indispensável agilidade criativa, gestão eficiente do tempo e capacidade de manter o rigor pedagógico sob demanda. Remuneração e Contratação Vigência: 5 meses (Julho de 2026 a Janeiro de 2027).Formato: contrato de prestação de serviços como Pessoa Jurídica. Valor: R$6.000,00 ao mês. Vaga 100% remota. Para se inscrever, prencha este formulário até 22 de junho de 2026. Em caso de dúvidas, escreva um email para contato@comidaecultura.org, com o assunto “DÚVIDA VAGA ICC”.
Da Agricultura Familiar e dos Territórios tradicionais para a mesa dos alunos: Projeto Terra Nutre fortalece alimentação escolar saudável em Mato Grosso

Dos territórios tradicionais e da agricultura familiar para os pratos das escolas, o projeto Terra Nutre nasce com o propósito de ampliar o acesso de estudantes da rede pública de Mato Grosso a alimentos saudáveis e tradicionais, valorizando a produção local por meio da educação alimentar e da geração de renda no campo e nas comunidades tradicionais. Segundo o Atlas Mundial da Obesidade 2026, o Brasil possui cerca de 7 milhões de crianças e adolescentes, entre 5 e 19 anos, vivendo com obesidade e sob risco de desenvolver doenças como diabetes e hipertensão. Para enfrentar esse cenário, o Terra Nutre busca fortalecer o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), incentivando a inserção de alimentos frescos, tradicionais e locais. A iniciativa promove segurança alimentar para os estudantes, gera renda para quem produz e contribui para a proteção do meio ambiente, já que a agricultura familiar e os sistemas agrícolas tradicionais respeitam os tempos da natureza e os ciclos da vida. Um importante instrumento nesse processo é a lei 15.226/25, que prevê que, no mínimo, 45% dos recursos destinados à alimentação escolar e repassados pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) aos estados e municípios sejam utilizados na compra de alimentos da agricultura familiar. É por meio do PNAE que os agricultores familiares e povos tradicionais têm a oportunidade de comercializar sua produção, beneficiando também os estudantes, muitos deles filhos e filhas das próprias pessoas produtoras. Mas como garantir que esses alimentos saudáveis cheguem aos estudantes? É preciso ampliar a capacidade produtiva desses atores, fortalecer suas organizações sociais e expandir as possibilidades de comercialização, especialmente por meio das compras públicas. É o que explica a diretora-adjunta do Instituto Centro de Vida (ICV), Camila Rodrigues: “Do lado da compra, queremos que as entidades executoras como as prefeituras e outros órgãos, estejam sensibilizadas. Com isso, esperamos que a aquisição de alimentos locais e saudáveis também se amplie, melhorando a qualidade da alimentação escolar.” Uma das áreas de atuação do projeto é o Território Indígena do Xingu (TIX), onde os alimentos tradicionais abastecem as escolas desde o início dos anos 2000, quando elas começaram a ser implementadas. “Observamos as crianças comendo murici, pequi, mel, mangarito, peixes, polvilho e farinha, alimentos que são entregues pelos seus familiares. Esse é um resultado da autodeterminação dos povos e de rearranjos na política pública que inspiram sua execução em outros territórios”, explica a antropóloga do Instituto Socioambiental (ISA), Luísa Tui, que faz parte da equipe do Terra Nutre. Ela destaca ainda que a soberania alimentar é uma pauta central para os povos do Xingu, mas que os desafios permanecem. Entre eles estão as adaptações necessárias nas formas de produção diante das mudanças nos ciclos das águas e dos impactos causados pela ocupação no entorno dos territórios, além de entraves burocráticos que muitas vezes desconsideram a realidade das comunidades. O coordenador de subprojeto no Centro de Tecnologia Alternativa (CTA), Ronaldo Adriano, considera que deve ser dada atenção ao cumprimento dos contratos. “Ainda há espaço de melhoria no cumprimento da lei. De um lado, temos as organizações com demanda e se preparando para participar cada vez mais dos chamamentos públicos; e por outro lado, as entidades executoras que precisam dar eficiência na operacionalização das compras dos alimentos locais e no cumprimento dos 45%. Um dos grandes desafios que vemos é garantir que os contratos assinados não sejam interrompidos.” Um dos instrumentos de ação do Terra Nutre é a elaboração de diagnósticos produtivos das organizações, com o objetivo de mapear esses desafios e identificar caminhos para fortalecer a execução do PNAE. O coordenador do CTA explica que o mapeamento trará indicativos claros que apoiarão a execução do PNAE. A agricultura familiar e os sistemas agrícolas dos povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais são referências na produção de alimentos em equilíbrio com a natureza. Essas pessoas produtoras desenvolvem práticas que preservam o meio ambiente e promovem o cuidado com a água, a biodiversidade e o clima. Ainda assim, seus produtos seguem enfrentando dificuldades para acessar mercados e ampliar a comercialização. Essa articulação entre produção sustentável e alimentação escolar é o que move o consórcio de instituições responsável pelo Terra Nutre. O projeto é financiado pelo Fundo Amazônia/BNDES, no âmbito da iniciativa Amazônia na Escola, e executado pelo Instituto Centro de Vida (ICV) em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), o Centro de Tecnologia Alternativa (CTA), o Instituto Comida e Cultura (ICC), o Instituto Comida do Amanhã (CdA), o Instituto Conexões Sustentáveis (Conexsus) e a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso (Funadif). O Terra Nutre também conta com Acordos de Cooperação Técnica com a Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso (Seduc-MT) e com as prefeituras de Paranaíta, Nova Bandeirantes, Carlinda, Alta Floresta, Porto Esperidião, Vila Bela da Santíssima Trindade, Mirassol d’Oeste, Poconé, Nossa Senhora do Livramento e Guarantã do Norte, além do apoio do Ministério Público Federal (MPF), no âmbito das ações da Catrapovos-MT. “É uma coordenação de esforços que irá apoiar, na prática, quem produz de forma sustentável e quem compra esses alimentos por meio do PNAE”, finaliza a diretora-adjunta do Instituto Centro de Vida (ICV).
Alimentação saudável nas escolas e o papel da EAN nas políticas públicas. Saiba mais sobre nossa viagem mais recente a Brasília!

No dia 20 de maio de 2026, o Instituto Comida e Cultura esteve em Brasília para participar do evento “Alimentação Saudável nas Escolas Brasileiras: Experiências Locais e Perspectivas Nacionais”, realizado no âmbito do programa Alimenta Cidades, coordenado pela Profa. Larissa, do GEPPAAS/UFMG. Nossa Coordenadora Geral Ariela Doctors representou o ICC em um espaço que reuniu representantes do governo federal, do legislativo, da academia e da sociedade civil — entre eles o IDEC, a ACT Promoção da Saúde, a Instituto Desiderata, o Unicef, o CONSEA Nacional, o Ministério do Desenvolvimento Agrário e o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social. Com tantas vozes potentes, foi um encontro denso, plural e necessário! A contribuição do ICC ao debate foi trazer uma perspectiva ampliada sobre a proteção do ambiente alimentar escolar, como já defendemos em outros espaços. Para nós, mais do que restringir a oferta de ultraprocessados (pauta urgente e inegociável, certamente ), é preciso construir mecanismos reais de implementação das políticas já existentes e pensar na Educação Alimentar e Nutricional como ferramenta estruturante. Ou seja, defendemos a existência de resoluções efetivas, planos de ação concretos e responsabilização nos níveis municipal, estadual e federal. Sem isso, os marcos legais ficam no papel. Por lá, também buscamos defender que a Educação Alimentar e Nutricional precisa ser entendida como processo contínuo de formação, que começa na primeira infância e forma sujeitos críticos, autônomos e conscientes do seu direito à alimentação adequada para a vida toda. Assim, a gente acredita que a EAN não é um complemento, mas parte essencial e sistêmica de qualquer política séria de alimentação escolar. O evento foi ainda um rico espaço de articulação. Ariela dialogou com o parlamentares, colegas do terceiro setor e com pesquisadores e organizações que compõem esse campo tão fundamental. Seguimos presentes com nosso trabalho de incidência política para levar a missão do ICC para para espaços onde as políticas se constroem. Até a próxima!
ICC no CONBRAN 2026: incidência em Curitiba sobre culturas alimentares nas políticas públicas

Em maio de 2026, o Instituto Comida e Cultura esteve presente em Curitiba para um dos encontros mais importantes do setor de nutrição no Brasil: o XXIX Congresso Brasileiro de Nutrição, o CONBRAN 2026, realizado de 12 a 15 de maio. A convite do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, nossa co-fundadora Juliana Furlaneto Benchimol representou o ICC no stand institucional do MDS, participando do debate sobre o Marco de Referência de Culturas Alimentares para as Políticas Públicas. No espaço, ela contribuiu com reflexões sobre como valorizar as culturas alimentares dentro das políticas públicas e dialogou com profissionais, pesquisadores e gestores que compõem esse campo tão essencial. Além do debate, acompanhamos palestras, mesas e discussões técnicas ligadas à agenda de segurança alimentar e nutricional, fortalecendo conexões institucionais e o intercâmbio de saberes. Esse tipo de presença importa muito para o ICC. O CONBRAN é um dos principais espaços onde se pensa e se disputa o futuro das políticas públicas e regulações sobre alimentação no país. E é justamente ali que queremos estar, contribuindo para que a Educação Alimentar e Nutricional (EAN) se torne uma ferramenta cada vez mais concreta e efetiva nas escolas brasileiras. Agradecemos ao Ministério pelo convite e pela confiança. Seguimos juntos nessa construção!