Entre a FOMO e a fome: As big techs vão nos devorar?

4 de maio, 2026
fomo e a fome

Por Susana Prizendt. Originalmente publicado no Outras Palavras.

Quem é ou já foi fumante sabe muito bem ao que a palavra vício se refere. Acender mais um cigarro passa a ser não simplesmente a realização de um mero desejo, mas a consequência incontornável de atender ao que se apresenta como uma necessidade. E, assim, infindáveis próximos cigarros serão inevitavelmente acesos, em meio às possíveis tentativas de impedir que as mãos risquem cada novo fósforo. 

Nesse percurso de fósforos riscados e isqueiros esvaziados, podemos imaginar que a verdadeira fogueira está dentro do ou da fumante. Ela arde de um modo crescente e vai provocando uma sede cada vez maior, que só será acalmada quando a fumaça do tabaco for aspirada e abafar as chamas que gritam. Sentir essa sede bio-psicoemocional e não tragar os elementos químicos que momentaneamente a aplacam é enfrentar um demônio cruel, que atende pelo nome de síndrome de abstinência. Significa sentir algo que vai do desconforto ao desespero — e pode até mesmo fazer com que a pessoa deixe de ver sentido em viver. 

Ao longo de milênios, os seres humanos descobriram quais eram e como poderiam utilizar muitas das substâncias que geram estímulos momentâneos aos sentidos. Várias dessas substâncias também alteram o estado da consciência e permitem expandir percepções, abrindo espaço para experiências místicas. E uma parte delas tem o poder de acionar mecanismos cerebrais ligados ao desenvolvimento de dependências, o que poderia dar muito pano para a manga em um possível debate sobre o tal livre arbítrio, que o deus judaico-cristão teria concedido aos seres humanos. 

Deixando a esfera do intangível de lado, o fato é que o capitalismo soube muito bem como se apropriar do mecanismo que caracteriza o vício, para potencializar a capacidade de dominação de algumas pessoas sobre outras e, até mesmo, sobre as massas. Estão aí os impérios de corporações como a AmBev — com sua fortuna oriunda da produção e venda de cervejas feitas com milho possivelmente transgênico —, mostrando que investir em algo como o álcool, uma droga lícita e altamente sociável, é como criar uma galinha que bota ovos de ouro. Aliás, ovos dourados como as toneladas de líquido que enchem as garrafas e latas da empresa (somente a unidade de Uberlândia produz 7 bilhões de litros ao ano). 

Até mesmo guerras podem se relacionar com o controle de elementos viciantes. No século XIX, um império milenar do Oriente foi enquadrado por potências europeias por tentar impedir o comércio de uma droga dentro de suas fronteiras. Nas chamadas Guerras do Ópio, dois conflitos bélicos ocorridos entre 1839 e 1860,  o interesse britânico em lucrar com a exploração do vício na droga em território chinês levou a ataques violentos. Ambos se encerraram com tratados que podemos definir como absolutamente desvantajosos (para não soltar um palavrão) para a China. Aliás, neste ano de 2026, Donald Trump invadiu a Venezuela e sequestrou seu presidente, baseando-se na ladainha hipócrita de que estava combatendo o narcotráfico. 

No entanto, é fundamental ressaltar que nem sempre o desenvolvimento de dependências está atrelado ao consumo de uma substância química que pode ser ingerida, inalada ou injetada. Nosso cérebro pode se viciar em elementos que não precisam entrar materialmente no organismo. É o caso dos jogos de apostas ou do consumo de pornografia, inclusive aquela ligada à pedofilia. Vultosos volumes de dinheiro são movidos a partir da exploração de quem se vicia no giro de roletas ou nos gestos artificiais de atrizes e atores pornôs. Dentro e fora da legalidade, encontramos intrincadas cadeias de promoção desses mercados, desequilibrando a vida financeira das famílias que têm integrantes aprisionados/as em suas garras.

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