No dia 17 de abril, a cozinha pedagógica da Centro Universitário São Camilo, na Pompeia (São Paulo/SP), recebeu profissionais da educação e pessoas interessadas na pauta dos sistemas alimentares para a estreia do Cozinhas & Infâncias Par-trilhas, a nova expansão do programa que o Instituto Comida e Cultura construiu com tanto cuidado, e que agora chega também às escolas particulares e ao público geral.
“Circular e expandir esse programa entre escolas de ensino privado e demais educadoras(es) possibilita valorizarmos a atuação desses atores , oferecendo instrumentos para transversalizar temas de educação, cultura alimentar, sociobiodiversidade, identidade e justiça socioambiental no cotidiano escolar e em seus territórios de afeto”, afirma daniella brochado, co-autora do programa e diretora pedagógica e de Educação para Relações Étnico-Raciais
Entre os aromas frescos da cozinha e o papo da nova turma que ali nascia, este primeiro encontro deu o tom do que está por vir: uma jornada de aprendizados e trocas profundas, em roda, como gostamos de praticar no ICC. Essa metodologia nos convoca para um encontro dialógico sobre a História da Alimentação Humana e a trajetória da cultura culinária brasileira sob uma perspectiva decolonial, com uma abordagem intercultural e sistêmica que desagua nas infâncias nas infâncias.
Nesta estreia do par-trilhas, a facilitadora Mariana Soares plantou uma das sementes que enraizam o trabalho pedagógico que queremos construir com este novo projeto. A questão das sementes abre justamente a nossa metodologia, que frutifica a partir do encontro, do estar em roda, em diálogo horizontal. Com a delicadeza e a força de seu papel de educadora, ela disse: “Cada criança tem o seu potencial dentro dela e a gente precisa ser esse adubo que vai fazer vingar essa semente.”
A facilitação deste e dos próximos encontros segue sendo conduzida por Mariana Soares e Rebeca Amadei. “Realmente emociona participar e ver a Eduação Alimentar e Nutricional se propagar com essa formação que atravessa quem por ela passa. É muito satisfatório.. ninguém sai do mesmo jeito que chegou, e a construção segue a cada encontro. Somando cada vivência a todos nós, vamos espalhar essas sementes do bem”, declara Rebeca.
Já Ariela Doctors, Diretora Geral do ICC e uma das criadoras da metodologia pedagógica do programa Cozinhas & Infâncias, explicou a lógica por trás do cardápio escolhido: “A gente também pensa em receitas que sejam fáceis de ser reproduzidas com as crianças, porque no fim do dia, o que a gente quer é que essa atividade também seja realizada dentro das escolas e dentro das casas.”
É também importante revelar um pouco do que acontece nos bastidores de uma jornada presencial como essa: antes de qualquer encontro na rua, há todo um trabalho silencioso de planejamento, logística e curadoria que viabiliza a experiência ali, na cozinha pedagógica:

Entre receitas e visões de mundo
A força desta aula presencial está justamente no ato de ocupar a cozinha e ressignificá-la como espaço pedagógico. É por isso que as receitas são possíveis, é por isso que a feitura da comida acontece de forma harmônica, seguindo as instruções da receita, mas também acolhendo um pouco de cada pessoa, do que cada uma coloca naquele fazer.
O grupo preparou um bolinho errado de mandioca — “errado” porque nasceu de um acidente feliz na cozinha da chef Mara Salles, do restaurante Tordesilhas, e que de tão gostoso entrou no livro de receitas dela. A turma também produziu tapiocas coloridas com cenoura e beterraba, partindo do polvilho úmido, uma opção super divertida de fazer com as crianças.
E ainda rolou um frango com quiabo, receita que trouxe à tona uma conversa sobre história, ancestralidade e os preconceitos que carregamos à mesa. “O quiabo é um alimento da sociobiodiversidade africana”, contou Ariela,“e tem um preconceito inclusive com a baba do quiabo“. Com sensibilidade e embasamento, a proposta do programa é justamente abrir espaço para desmanchar este e outros preconceitos.
Nesse percurso, também não podiamos deixar de exaltar o protagonismo da mandioca e do milho, que atravessaram o dia como fios condutores da nossa estreia. “São dois alimentos que dizem muito do que a gente é como povo brasileiro“, contou Ariela.
Ainda sobre as receitas: “nesse encontro nos deliciarmos com pratos de culturas alimentares plurais, que podem passar a compor o repertório culinário cotidiano. pensamos receitas que valorizassem os alimentos in natura, e minimamente processados, o reaproveitamento integral de muitos deles, além de demonstrar que é possível preparar refeições saborosas, nutritivas e acessíveis sem depender de ultraprocessados. E Guia Alimentar para População Brasileira nos inspira também aqui”, contou daniella brochado.
Por fim, o encontro também abriu espaço para uma reflexão mais ampla sobre o que comemos e por quê. Ariela apresentou o Guia Alimentar para a População Brasileira, publicado pelo Ministério da Saúde em 2014, que rompeu com a lógica da pirâmide alimentar para olhar para o grau de processamento dos alimentos. “Os ultraprocessados não são recomendados para consumo humano nem animal. Na minha opinião, não é mais um alimento. Na verdade, é um produto”, ensinou Ariela.
Ao final, veio um momento de comensalidade: o comer junto. Esse gesto, que tem raízes profundas na cultura culinária afro-pindorâmica, fortalece laços e cria espaços de confiança. Na educação, isso é fundamental para que os processos aconteçam de forma inclusiva, respeitosa e generosa, e para que essa pedagogia ganhe vida por meio das pessoas.
Uma jornada que começa cheia de bons frutos
O Par-trilhas nasce com a missão de levar o olhar do Cozinhas & Infâncias para novos territórios, alcançando escolas particulares, famílias e educadores de diferentes contextos, e ampliando as possibilidades de encontro entre alimentação e educação.
Esse primeiro encontro já deixou evidente que o caminho é fértil. Entre receitas, histórias e reflexões que vão do prato à terra, do corpo à escola, a formação reafirma as dimensões políticas, afetivas e culturais da cultura alimentar brasileira.
Aqui e agora, o Par-trilhas se apresenta como um convite à construção de novos caminhos para o ICC, em rede, em roda e em processo contínuo de aprimoramento, como tudo que é vivo. Com tempo, cuidado e continuidade, o desejo é que novas turmas se formem e que o programa floresça, de agora em diante.
“par-trilhas: possibilidade de compartilhar, de dialogar e caminhar por aí em cooperação e coletivamente, rumo à expansão do tema da alimentação e seus desdobramentos nas infâncias, em prol de uma educação alimentar e nutricional que promove direitos, reafirmando nosso jargão, onde temos a criança como sujeito, o alimento como objeto e o Brasil vasto e diverso como territorio de nosso afeto”, finaliza daniella brochado.
Seguimos!