O que aprendemos sobre Educação Alimentar Nutricional com Patricia Jaime
No dia 30 de abril, vivemos mais um encontro especial da nossa agenda anual de formações internas. Esses momentos especiais reúnem a equipe contratada e voluntária do ICC com o objetivo de ampliar saberes e fortalecer a base conceitual de quem faz o instituto existir e pulsar. Este foi o segundo encontro do ciclo, que estreou com um lindo dia de trocas no Condô Cultural. Desta vez, tivemos a alegria de contar com Patricia Jaime, nossa conselheira, professora da Faculdade de Saúde Pública da USP e uma das principais referências brasileiras em Nutrição e Saúde Pública. Juntas, mergulhamos na Educação Alimentar Nutricional (EAN) como campo de conhecimento e como ferramenta de política pública. Vem saber como foi esse encontro cheio de aprendizados! Primeiro passo: o que é EAN? Para abrir a conversa, Patricia acolheu a turma com uma contextualização sobre o que é a Educação Alimentar Nutricional e o campo de prática intersetorial e interdisciplinar que busca promover a autonomia de indivíduos e comunidades nas suas escolhas alimentares. Com sensibilidade e profundidade, ela trouxe aspectos biológicos, culturais, sociais, econômicos e ambientais, mostrando como esse tema vai muito além do setor de saúde e da atuação de nutricionistas. Com lugar de fala e conhecimento de causa, a professora e conselheira do ICC participou diretamente da construção de dois documentos centrais para a EAN no Brasil: o Marco de Referência de EAN para Políticas Públicas (2012) e o Guia Alimentar para a População Brasileira (2014), dois marcos que seguem iluminando o trabalho de profissionais, organizações e gestores públicos que atuam nos sistemas alimentares. Por isso, Patrícia também nos guiou pela trajetória da EAN no Brasil e como esse conceito está ancorado em três direitos fundamentais: o direito à saúde, o Direito Humano à Alimentação Adequada e Saudável, e o direito à informação. O que esse encontro nos trouxe Por fim, além da base conceitual, a conversa nos levou por temas como o vínculo entre acesso à terra e direito à alimentação, o papel dos guias alimentares no enfrentamento aos ultraprocessados, e a importância de aproximar universidade e sociedade civil na difusão desse conhecimento. Certamente, saímos do encontro com a certeza de que o programa Cozinhas & Infâncias também é uma das ferramentas dessa prática, já que constroe um espaço onde a EAN deixa de ser conceito e passa a acontecer no cotidiano das escolas e famílias, na vida das crianças, na escuta, nas escolhas e nas histórias que se constroem à mesa.
Entre a FOMO e a fome: As big techs vão nos devorar?

Vício em telas explorado por corporações se conecta a várias esferas da vida: da difusão de ultraprocessados à alimentação precária com celulares em mão
Organizações de Brasil, México e Panamá realizam webinar internacional sobre Educação Alimentar e Nutricional nas Américas

Evento reúne representantes das três Américas para debater avanços e estratégias conjuntas na inserção da EAN nos currículos escolares e nas políticas públicas
Ultraprocessado na cantina: proibir basta?

Confira a entrevista com a pesquisadora Laura Scaciota sobre como integrar a Alimentação Escolar e a Educação Alimentar e Nutricional (EAN)
Do cerrado à alimentação escolar: a caminhada do baru até a mesa das crianças

Em março de 2026, os primeiros quilos de farinha de baru começaram a chegar às escolas do município de Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso. Vem saber mais!
Cozinhas & Infâncias em Sorriso: um percurso de formação e troca

Por Flora Camargo e Alessandra Luvisotto
ENCANTAR O COMER: saberes ancestrais e utopias possíveis

Pensar em utopia no debate sobre alimentação saudável exige reconhecer que o ato de comer bem, no Brasil, é atravessado por desigualdades históricas. Paulo Freire nos lembra que a utopia não é fuga da realidade, mas um movimento para transformá-la. Nêgo Bispo amplia essa reflexão ao afirmar que imaginar outros mundos implica “desinventar” aquilo que o colonialismo estabeleceu como regra. Para ele, transformar significa recuperar cosmopolíticas ancestrais que colocam a vida e o território no centro das relações, rompendo com a lógica que separa seres humanos, natureza e alimentos. Hoje, alimentos ultraprocessados ocupam um espaço enorme na rotina das famílias brasileiras. Muitas vezes isso é impulsionado pelo preço, pela praticidade e pela ausência de políticas que garantam acesso contínuo a alimentos frescos e nutritivos. O racismo estrutural, somado à desigual distribuição de renda e de oportunidades, influencia diretamente esse cenário. Ele molda hábitos, acessos e possibilidades, e determina quem consegue ou não manter uma alimentação baseada em alimentos in natura. Esse rompimento entre alimento, território e corpo expressa o que Nêgo Bispo aponta como consequência da colonialidade, que transforma comida em mercadoria e desorganiza os vínculos comunitários que sustentavam a vida. Nesse debate, o pensamento de mulheres negras tem sido fundamental para ampliar o horizonte. Rute Costa, nutricionista brasileira e professora da UFRJ, é uma referência importante na área de Alimentação. Com uma formação acadêmica sólida, incluindo Mestrado em Alimentação, Nutrição e Saúde pela UERJ e Doutorado em Educação em Ciências e Saúde pela UFRJ, Rute é liderança do grupo de pesquisa CulinAfro, criado em 2014. Ela destaca que “alimentação é lugar de memória e de identidade”, reforçando que os saberes culinários afro-brasileiros foram historicamente desvalorizados, apesar de serem profundamente nutritivos, diversos e ligados à terra. Em seu trabalho com comunidades quilombolas, Rute Costa mostra que preservar esses modos de comer também é preservar autonomia e direitos, algo que dialoga com o que Bispo chama de contracolonização, quando práticas ancestrais resistem às imposições coloniais e seguem orientando a vida. Na diáspora, a nutricionista, ativista e copresidente de Nutrição e Saúde do Conselho de Política Alimentar de Washington, D.C., Tambra Raye Stevenson, fundadora da WANDA (Women Advancing Nutrition, Dietetics and Agriculture), atua na defesa da soberania alimentar de mulheres negras e na valorização dos saberes africanos que estruturam práticas culinárias e modos de comer. Ela afirma que “a comida é uma arma de cura e de soberania” e desenvolve projetos que recuperam práticas alimentares africanas e afro-diaspóricas para reconstruir sistemas de saúde mais justos, culturalmente adequados e conectados às identidades negras. Seu trabalho evidencia que não existe saúde separada de território, memória e enfrentamento às desigualdades raciais. Essa perspectiva também dialoga com a noção de encantamento de Nêgo Bispo, que compreende o cuidado com a vida como equilíbrio entre corpo, espírito e ambiente. Essas perspectivas mostram como o conhecimento afro-diaspórico pode nos ajudar a imaginar outros futuros possíveis. São futuros em que a comida de verdade seja um direito garantido, e não uma disputa diária. Futuros em que saberes ancestrais orientem políticas públicas, agricultura e educação alimentar. Futuros em que o cuidado com a terra e com o corpo não sejam luxo, mas parte da vida coletiva. Quando voltamos o olhar para povos originários e comunidades quilombolas, encontramos práticas que dialogam diretamente com essa utopia freireana e também com a visão de Nêgo Bispo, que nasceu e se formou em território quilombola. Historicamente, esses povos constroem formas de relação com a terra em que o alimento é parte da vida coletiva, da autonomia e da preservação do território. Eles demonstram, na prática, que outra forma de viver e comer é possível. É uma forma que respeita ciclos naturais, valoriza a diversidade, fortalece vínculos e coloca a vida, e não o mercado, no centro. Isso não significa que esses territórios estejam livres de pressões externas, como violências fundiárias, mudanças climáticas ou políticas que fragilizam a agricultura familiar. Mas mostra que aquilo que muitos chamam de “utopia alimentar” já existe em modos de vida ancestrais que sobreviveram à colonização, ao racismo e ao apagamento. Esses modos guardam saberes fundamentais para o presente e o futuro. Como afirma Nêgo Bispo, são formas de existência que “nunca se deixaram inventar”, justamente porque mantém viva a relação entre território, encantamento e coletividade. Assim, ao trazer para o centro as reflexões de pensadoras negras, os conhecimentos afro-diaspóricos, as contribuições de Nêgo Bispo e as práticas de povos originários, entendemos que a utopia alimentar não é fantasia. Ela já pulsa em muitos territórios, hortas, quintais e cozinhas. O desafio é fazer com que essas formas de existir deixem de ser exceção e se tornem horizonte comum. Talita Beltrame
Entre o real e o simbólico, entre o global e o ancestral: o chamado da COP30 para a Educação Alimentar Sistêmica

Em meio a paralisia diplomática e a potência ancestral, emergem caminhos que passam pela comida, pela cultura e pela educação.
Utopias que Tecem Redes: um encontro para sonhar o presente e o futuro do ICC

No dia 27 de novembro, realizamos um encontro especial com nosso Conselho Consultivo, em uma tarde marcada por trocas, escuta generosa e construção coletiva. Foram duas horas de conversa, em que afetos, estratégias e práticas se entrelaçaram como fios de uma mesma rede. O ICC chega ao fim de 2025 diferente de como começou: mais maduro, com equipe maior e preparado para novos desafios. Este ano foi marcado pela expansão de projetos, articulação política, ampliação do nosso alcance na formação de profissionais e fortalecimento institucional. E, justamente por isso, o encontro com o conselho neste fim de ano trouxe ainda mais profundidade ao trabalho. Estar com pessoas que carregam trajetórias sólidas nas pautas da alimentação, da soberania alimentar, da sustentabilidade, da saúde e da educação ampliou a visão do que vem pela frente. Reunir o conselho significa materializar a nossa atuação em rede. Como ninguém transforma os sistemas alimentares sozinho, é nesta teia viva, feita de parcerias, olhares atentos e contribuições, que podemos construir caminhos de cooperação e resiliência. Abrir espaço para esse grupo de especialistas é reconhecer que a missão do ICC é também coletiva, compartilhada e continuamente renovada. Para conhecer o time que nos acompanhe, visite esta página. Ao longo do encontro, surgiram insights potentes, críticas construtivas, provocações generosas e novas possibilidades para o próximo ciclo. O conselho lembrou que é preciso seguir firme na utopia: na crença de que educação alimentar e nutricional sistêmica pode transformar comunidades, fortalecer territórios e reorientar sistemas alimentares em direção ao cuidado, à saúde e à justiça social. Foi um convite para que o ICC não perca de vista aquilo que o fez nascer: o desejo profundo de unir comida, cultura, educação e direitos em um mesmo horizonte de transformação. Em meio às burocracias, demandas e rotinas de uma organização em crescimento, o conselho trouxe de volta o essencial: o sonho, o propósito, o impacto social. O encontro também reforçou o quanto 2025 foi um ano de raízes sólidas e brotos novos. O ICC ampliou sua atuação, fortaleceu o programa Cozinhas & Infâncias, avançou em incidência política, formou mais de 500 profissionais e impactou diretamente o cotidiano de milhares de crianças. Neste ano, também pudemos tecer redes com organizações nacionais e internacionais, consolidar metodologias, sistematizar dados e projetar o futuro com coragem. Agora, o Instituto se prepara para 2026 com energia renovada, novos projetos e um compromisso ainda mais amplo e ousado: ser porta-voz da Educação Alimentar e Nutricional nas redes e nas ruas, e contribuir para um Brasil que discuta, planeje e reconheça a comida como ferramenta de cuidado, cultura, identidade e transformação social. O encontro terminou com um sentimento comum: esperança ativa. Uma certeza compartilhada de que as utopias que movem o ICC não são ilusões distantes, mas a força motora de uma prática concreta, cotidiana e possível. O conselho segue ao lado do Instituto, tecendo redes, ampliando horizontes e lembrando, sempre, que sonhar é uma forma de fazer política.
Cidades alimentando o futuro: alimentação escolar nas infâncias

Reflexões a partir do Global Forum – Milan Urban Food Policy Pact 2025
por Daniella Brochado – Co-fundadora do ICC e Coordenadora Pedagógica para as Relações Étnico-Raciais