Quando a cozinha nos tira da zona de conforto: reflexões sobre Educação Alimentar e Nutricional, direitos e trabalho

2 de julho, 2026
0806 [Feed] Webinário Rede Pensan (Anúncio para Facebook)

Por Ariela Doctors

Ao longo do webinar “Educação Alimentar que Promove Direitos”, fruto da parceria entre o GT de Direito Humano à Alimentação Adequada e Saudável da Rede Penssan e o Instituto Comida e Cultura, fomos convidadas a percorrer diferentes experiências de Educação Alimentar e Nutricional (EAN) que reafirmam a potência da escola como espaço de formação, cuidado e garantia de direitos. As falas da Erika Fischer, cofundadora e coordenadora de desenvolvimento institucional do ICC, das professoras Priscila Aparecida Santos de Oliveira e Fabiana Lopes Laurito apresentaram experiências inspiradoras de construção coletiva, valorização dos alimentos in natura, fortalecimento dos vínculos entre crianças e natureza, participação das famílias, hortas escolares, compostagem e reconhecimento da alimentação como parte constitutiva do currículo e da formação humana. São experiências que nos ajudam a enxergar a EAN para além da transmissão de informações nutricionais, compreendendo-a como uma prática educativa capaz de promover autonomia, pertencimento, consciência crítica e aproximação com o Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) desde a primeira infância.

Mas foi justamente quando começamos a nos encantar com a potência dessas iniciativas que a fala de Kerley Arruda, cozinheira escolar da rede municipal de Niterói, nos deslocou para um  lugar de desconforto. Sua fala criou uma espécie de ruptura importante e necessária. Se até então olhávamos para as potencialidades da Educação Alimentar e Nutricional, Kerley nos convocou a olhar para o chão das cozinhas. Ela nos lembrou que não existe alimentação saudável sem condições dignas de trabalho para quem a produz. Não existe cardápio exemplar que se sustente sobre a sobrecarga, o adoecimento e a invisibilidade das trabalhadoras responsáveis por transformar diretrizes, planejamentos e políticas públicas em refeições concretas servidas diariamente a milhares de estudantes.

Ao compartilhar a realidade das cozinhas escolares, Kerley expôs as contradições que muitas vezes permanecem ausentes dos debates sobre alimentação escolar. Falou de equipes reduzidas, infraestrutura precária, calor excessivo, falta de equipamentos básicos, adoecimento físico e emocional, ausência de reconhecimento profissional e inexistência de regulamentação nacional da profissão de cozinheira escolar. Falou de mulheres que adoecem, infartam, são afastadas do trabalho e, ainda assim, permanecem invisíveis para grande parte das políticas que defendem uma alimentação de qualidade. Sua fala trouxe uma provocação fundamental: quando defendemos que as escolas descasquem mais e desempacotem menos, estamos também dispostos a discutir quem descasca, quem corta, quem prepara e em quais condições esse trabalho é realizado? Quando celebramos a ampliação dos alimentos in natura e a redução dos ultraprocessados, estamos considerando os impactos dessa escolha sobre as trabalhadoras que sustentam cotidianamente essa política pública? A potência da intervenção de Kerley esteve justamente em nos lembrar que a luta por alimentação adequada não pode ser dissociada da luta por trabalho digno. Que a defesa do DHAA passa necessariamente pela defesa dos direitos das cozinheiras escolares. Que não há justiça alimentar sem justiça no trabalho.

Essa reflexão dialoga diretamente com as discussões apresentadas por Bela Gil, também cofundadora do Instituto Comida e Cultura, em seu livro Quem Vai Fazer Essa Comida? No texto, Bela amplia o debate sobre alimentação saudável ao evidenciar que cozinhar é um ato profundamente político e coletivo, atravessado por relações de cuidado, gênero, trabalho e justiça social. Ao perguntar “quem vai fazer essa comida?” Bela desloca o foco do alimento em si para as pessoas que tornam possível sua existência e nos convida a reconhecer e valorizar o trabalho, frequentemente invisibilizado, de quem cozinha diariamente nas casas, nas escolas e em outros equipamentos públicos. 

Talvez uma das principais contribuições deste encontro tenha sido justamente a possibilidade de colocar essas perspectivas em diálogo. De um lado, as experiências pedagógicas que demonstram como a EAN pode ser uma poderosa porta de entrada para a formação de sujeitas/os conscientes de seus direitos, de sua relação com a natureza e dos sistemas alimentares que os cercam. De outro, a voz das trabalhadoras que nos lembram que nenhum projeto emancipatório se sustenta se aqueles que o tornam possível permanecerem submetidos à precarização.

Se acreditamos que a Educação Alimentar e Nutricional pode contribuir para formar cidadãos capazes de compreender e defender o Direito Humano à Alimentação Adequada, então precisamos reconhecer, com a mesma urgência, que essa formação começa também pelo reconhecimento dos direitos de quem alimenta. As cozinheiras escolares não são apenas executoras de cardápios. São educadoras, cuidadoras, trabalhadoras da alimentação e agentes fundamentais na garantia de direitos dentro da escola pública.

A reflexão que permanece após este encontro é que não basta defender a alimentação saudável, é preciso defender as condições que tornam essa alimentação possível. Não basta falar sobre o direito de comer bem, é preciso falar sobre os direitos de quem prepara essa comida todos os dias. Não basta apenas sonhar com “escolas comestíveis”, é necessário construir cozinhas mais justas.

Se a EAN pretende ser uma ferramenta de transformação social, ela precisa incorporar de forma definitiva a luta pela valorização, pelo reconhecimento e pela garantia de direitos das cozinheiras escolares. Afinal, cuidar de quem alimenta é também uma condição indispensável para garantir o direito à alimentação de quem aprende.

Para assistir ao Webinar completo, visite o canal da Rede Penssan no Youtube!

LEIA TAMBÉM

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Seja Parte dessa
mudança.