Quem forma quem em tempos complexos de alimentos e inteligênciasartificiais?

2 de julho, 2026
Cozinhas e Infancias Curitiba 2025_ Foto Alef Lopes

Por Ariela Doctors

Falar sobre educação é, em alguma medida, falar sobre o que escolhemos preservar da experiência humana e o que decidimos legar às próximas gerações. Educar nunca foi apenas transmitir informações, trata-se de compartilhar modos de compreender o mundo, de habitar territórios, de construir relações e de produzir sentidos. 

Essa reflexão ganha profundidade quando revisitamos o documentário Schooling the World: The White Man’s Last Burden – Escolarizando o Mundo: O Último Fardo do Homem Branco (2011), dirigido por Carol Black. O filme apresenta uma crítica contundente à expansão global de um modelo escolar ocidental que frequentemente se apresenta como universal, mas que, quando chega a diferentes comunidades, desvaloriza saberes locais, rompe vínculos culturais e enfraquece formas tradicionais de aprendizagem. A educação moderna, construída sob a promessa do progresso, nem sempre reconhece a pluralidade de conhecimentos produzidos pelas diferentes sociedades humanas. Essa crítica dialoga com as reflexões de Antônio Bispo dos Santos em A Terra Dá, a Terra Quer (2023), que defende a valorização dos saberes produzidos nos territórios e modos de vida tradicionais, questionando a colonialidade presente nas formas hegemônicas de conhecimento. Ao enfatizar a importância da confluência entre diferentes formas de existência e aprendizagem, Nego Bispo contribui para pensar uma educação capaz de reconhecer e fortalecer a diversidade epistemológica e cultural dos povos. 

Paradoxalmente, foi justamente a capacidade de acumular e transmitir conhecimento ao longo das gerações que permitiu à humanidade chegar até aqui. A neurocientista Suzana Herculano-Houzel, em A Vantagem Humana (2017), oferece uma perspectiva fascinante sobre esse processo ao discutir a importância do domínio do fogo e do cozimento dos alimentos na evolução humana. Ao cozinhar, nossos ancestrais passaram a obter mais energia dos alimentos com menor esforço digestivo. O tempo e a energia antes destinados à sobrevivência imediata puderam ser investidos em outras atividades: observação, experimentação, criação de ferramentas, linguagem, cooperação social e, sobretudo, aprendizagem.

O conhecimento humano tornou-se cumulativo. Cada geração passou a poder começar de onde a anterior havia parado. Em conversa no podcast, Papo Astral com o físico Marcelo Gleiser, Suzana destaca justamente esse aspecto singular da educação: ela permite que não precisemos reinventar continuamente a roda. A escola, nesse sentido, representa uma das mais importantes tecnologias criadas pela humanidade. Sua função não é apenas transmitir conteúdos, mas possibilitar que o patrimônio intelectual, científico e cultural acumulado ao longo de milhares de anos permaneça vivo e acessível. 

Entretanto, esse processo de acumulação produziu outro fenômeno. À medida que o conhecimento se expandiu, tornou-se impossível para um único indivíduo dominar todos os campos do saber. A ciência avançou por meio da especialização. Dividimos o conhecimento em disciplinas, áreas, subáreas e especialidades cada vez mais específicas. Essa estratégia foi extremamente bem-sucedida para aprofundar nossa compreensão do mundo. Graças a ela, produzimos avanços extraordinários na medicina, na física, na biologia, na agricultura e em inúmeras outras áreas. Em certa medida, esse movimento guarda relação com o pensamento cartesiano, inspirado por René Descartes (2001), cujo método propunha decompor problemas complexos em partes menores para torná-los mais compreensíveis. Embora esse princípio metodológico tenha contribuído para o que chamamos de ciência moderna, ele também favoreceu uma crescente fragmentação dos saberes. 

Mas o sucesso da especialização trouxe consigo outro paradoxo. Quanto mais aprendemos a analisar as partes, mais difícil se tornou compreender o todo. Os grandes desafios contemporâneos como mudanças climáticas, desigualdades sociais, crises alimentares, saúde coletiva, sustentabilidade e desenvolvimento tecnológico, não respeitam fronteiras disciplinares. São problemas complexos, sistêmicos e interdependentes. Contudo, continuamos formando pessoas em estruturas educacionais frequentemente fragmentadas, que separam aquilo que, na vida real, está profundamente conectado. 

Como argumenta Edgar Morin em A Cabeça Bem-Feita (2000) e Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro (2000), a educação moderna alcançou enorme êxito na produção de conhecimentos especializados, mas ainda encontra dificuldades para religar saberes e formar uma compreensão capaz de lidar com a

complexidade do mundo contemporâneo. O desafio não é abandonar as disciplinas, mas construir pontes entre elas. 

Nesse contexto emerge um novo elemento transformador: a inteligência artificial. Pela primeira vez na história, vivemos em um mundo no qual praticamente todo o conhecimento registrado pode ser acessado e compartilhado instantaneamente em escala global. As barreiras geográficas diminuem, a circulação da informação acelera e a produção de conhecimento se torna cada vez mais distribuída. 

Ao mesmo tempo, surge um novo risco. Se a escola moderna já foi criticada por promover uma homogeneização cultural, as tecnologias digitais e os sistemas de inteligência artificial podem ampliar ainda mais essa propensão. A disponibilidade global de conteúdos, referências e modelos pode favorecer processos de padronização do pensamento, dos currículos e das formas de produzir conhecimento. 

Talvez este seja um dos maiores desafios contemporâneos para educadores: como transmitir o extraordinário acúmulo de conhecimento construído pela humanidade sem transformar a educação em mera replicação? Como garantir o acesso ao patrimônio científico e cultural coletivo sem sufocar a diversidade de experiências, saberes e perspectivas? Como preservar espaços de dúvida, experimentação e criação em um contexto onde respostas parecem estar sempre disponíveis? 

A criatividade raramente nasce do preenchimento completo. Ela emerge das lacunas, dos encontros inesperados, das perguntas ainda não respondidas. Educar, portanto, talvez seja menos oferecer respostas definitivas e mais criar condições para que novas perguntas possam surgir. Paulo Freire (1996) nos lembrava que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para sua produção e construção. E isso exige ambientes colaborativos, onde diferentes formas de conhecimento possam dialogar e produzir sínteses inéditas. 

É nesse ponto que a alimentação se revela um campo particularmente fértil para pensar a educação contemporânea. A comida conecta natureza e cultura, ciência e tradição, indivíduo e comunidade, local e global. Ao estudar a alimentação, podemos compreender processos biológicos, sistemas agrícolas, dinâmicas

econômicas, identidades culturais, transformações históricas e questões ambientais. A alimentação oferece uma oportunidade concreta para reintegrar aquilo que a fragmentação disciplinar muitas vezes separou. 

Mais do que um tema, a comida pode ser uma lente para a aprendizagem. Uma lente que permite articular conhecimentos diversos em torno de experiências significativas e situadas, aproximando-se daquilo que Timothy Ingold descreve em Making: Anthropology, Archaeology, Art and Architecture (2013) como aprendizagem baseada no engajamento direto com o mundo e com as práticas da vida cotidiana. Uma lente que valoriza tanto o rigor científico quanto os saberes produzidos nos territórios, nas famílias e nas comunidades. Uma lente que reconhece a complexidade do mundo sem abrir mão da experiência concreta. 

Essa perspectiva também dialoga com a visão sistêmica proposta por Fritjof Capra e Pier Luigi Luisi em The Systems View of Life – A Visão Sistêmica da Vida (2014), para quem os grandes desafios contemporâneos exigem compreender conexões, relações e interdependências, e não apenas componentes isolados. A alimentação talvez seja um dos poucos temas capazes de tornar essa visão tangível no cotidiano educativo. 

Talvez a educação do futuro não dependa apenas de mais informação, mas de melhores formas de conectar conhecimentos. E talvez seja justamente ao redor da mesa, do alimento e dos sistemas que os produzem que possamos encontrar caminhos para uma educação mais humana, integrada, criativa e capaz de preparar as novas gerações para os desafios de um mundo cada vez mais complexo e interdependente. 

Há ainda uma bela circularidade nessa imagem. Se a humanidade começou a acumular conhecimento ao redor do fogo, talvez o desafio da educação contemporânea seja justamente criar novas fogueiras, espaços de encontro, diálogo e criação coletiva, talvez a alimentação possa agora nos ajudar a enfrentar o próximo desafio evolutivo: aprender a integrar conhecimentos, culturas e tecnologias sem perder a diversidade, a criatividade e a capacidade de imaginar futuros inéditos. 

A educação, vista pelas lentes da comida, da alimentação e dos sistemas que a sustentam, pode oferecer exatamente esse caminho. Um caminho que reconhece a importância do conhecimento acumulado pela humanidade, mas que também preserva espaços para a curiosidade, para a colaboração e para a criação do que ainda não existe. 

Referências 

BLACK, Carol. Schooling the World: The White Man’s Last Burden. Estados Unidos: Lost People Films, 2011. Documentário. 

BISPO DOS SANTOS, Antônio. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora, 2023. 

CAPRA, Fritjof; LUISI, Pier Luigi. A visão sistêmica da vida: uma concepção unificada e suas implicações filosóficas, políticas, sociais e econômicas. São Paulo: Cultrix, 2014. 

DESCARTES, René. Discurso do método. São Paulo: Martins Fontes, 2001. (Obra original publicada em 1637). 

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. 

HERCULANO-HOUZEL, Suzana. A vantagem humana: como nosso cérebro se tornou superpoderoso. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. 

INGOLD, Timothy. Making: anthropology, archaeology, art and architecture. London: Routledge, 2013. 

MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. 8. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. 

MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 2. ed. São Paulo: Cortez; Brasília: UNESCO, 2000. 

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